Arvoramento de Natal - Ano após ano, as iluminações de Natal fazem parte da paisagem humanizada, aclarando com todo o simbolismo a esperança de um mundo melhor. Sendo esta a maior das aspirações da humanidade e também, por analogia, da missão dos bombeiros, não é de estranhar a presença, na foto artística e documental destacada, da autoria de Arnaldo Madureira, de um veículo de socorro a apoiar trabalhos em luminárias.



Fogo de mato, uma boa lição

Texto: Artur Gomes*
Foto: Arquivo F&H

A propósito da situação que se está a viver com os incêndios rurais, recordei-me do meu "batismo de fogo", naquele fim de verão de 1970.



Alistei-me no dia 13 de setembro, domingo.

Passados uns dias fui fazer o exame médico no posto da AHB Estoril, que dispunha de consultas médicas e enfermagem.

Deram-me um armário de metal partilhado com um bombeiro mais velho (felizmente, ainda entre nós), onde guardei as botas de borracha. Recebi, também, um bivaque, uma camisa de popeline cinzenta-azulada, um par de distintivos de estagiário (na época, aspirante) e um cinto de precinta. E fui tirar medidas para um par de calças de cotim com riscas laterais pretas. Onde? No forte da Cadaveira, junto à praia da Poça, onde funcionava um posto da extinta Guarda Fiscal. A razão é simples: um dos "pica-chouriços" (nome que era dado ao pessoal da GF) era um exímio alfaiate. Era ele quem fazia as calças de cotim para o pessoal dos bombeiros do Estoril.



"(...) após o desembarque, um bombeiro dos 'velhinhos' perguntou, 'quem é que sabe escrever à máquina?' Inocentemente, levantei o braço. 'Toma lá esta enxada e vai com os outros...'"



Julgo que já em outubro, ouvi a sirene a tocar já após o jantar. Eu não tinha qualquer meio de transporte, apesar dos meus 19 anos. Vesti a camisa, peguei no bivaque e saí porta fora, para desespero da minha mãe, que não tinha achado graça ao meu alistamento como bombeiro voluntário.

A minha casa não era perto do quartel. Era, mais ou menos, onde ainda moro, no centro do Monte Estoril. Desci a rua D. Manuel de Mello, que ainda se chamava "do Jardim", direito à estrada Marginal. No final da rua estava um carro a querer entrar para o lado do Estoril (ainda se podia fazer isso). Pedi boleia. Disse que era bombeiro e que a sirene estava a tocar. Deixaram-me no Alto Estoril perto do quartel.

Naquele tempo íamos para os fogos "de mato" sem qualquer formação (ou instrução, como se designava). Vai com os mais velhos, que aprendes com eles. E assim foi. Embarquei no veículo "pronto-socorro 1". Um Bedford de cabina avançada. O "fogo de mato" era nos terrenos da quinta da Marinha, em Cascais. A urbanização ainda não tinha chegado tão longe. No local, após o desembarque, um bombeiro dos "velhinhos" perguntou, "quem é que sabe escrever à máquina?" Inocentemente, levantei o braço. "Toma lá esta enxada e vai com os outros..." E foi assim, passei a noite a cavar terra, coisa que nunca tinha feito na vida. Foi uma boa lição...

10.08.2025


*Comandante QH do Corpo de Bombeiros do Estoril



O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.
A foto publicada tem efeito meramente ilustrativo. Não se refere ao incêndio recordado no texto.