Arvoramento de Natal - Ano após ano, as iluminações de Natal fazem parte da paisagem humanizada, aclarando com todo o simbolismo a esperança de um mundo melhor. Sendo esta a maior das aspirações da humanidade e também, por analogia, da missão dos bombeiros, não é de estranhar a presença, na foto artística e documental destacada, da autoria de Arnaldo Madureira, de um veículo de socorro a apoiar trabalhos em luminárias.



Fogachos 8: A grande e a dádiva

Memórias do Comandante Fernando Sá | Jornalista e Bombeiro Voluntário



A uns - a muitos, a todos nós - causou admiração; a outros - pensamos que parte mínima - mereceu reparo, naquele sentido de avareza dos que muito podem e pouco ajudam.

Mas algo de bom ficou a pairar em redor daquele modesto guarda-fiscal a quem a sorte da lotaria bafejou com 400 contos.

E ele dissera aos seus bombeiros - os nossos camaradas de Moscavide: se me sair a grande, vocês apanham 100 contos.

Naturalmente houve uns sorrisos; aqueles que se formam sem esforço, a premiar a boa intenção de umas palavras, ou de uma ideia.

E se saisse? Ora essa...

Pois foi verdade. Saiu mesmo. E o sr. Manuel Joaquim Gaião Cordeiro, logo que recebeu os 400 contos foi direitinho ao quartel dos Voluntários de Moscavide e, na singeleza da sua acção, na modéstia das suas palavras, estava toda uma alma boa e honesta: Pronto, aqui estão os 100 contos que prometi.

Mais nada. A não ser, por certo a satisfação de poder cumprir uma promessa, de ter podido um dia oferecer aos seus bombeiros uma dádiva grande, com que eles mais alonguem a sua acção.

Nós ficámos com uma leve pontinha de amargura: se poderá ter havido alguém que em face daquela benemerência de um homem simples e pobre, lhe dirigiu algum pensamento de crítica. Se houve alguém capaz de escarnecer daquela bondade.


Lisboa, 1968



Foto: Arquivo Municipal de Loures
Antigo quartel-sede do Corpo Voluntário de Salvação Pública de Moscavide