Arvoramento de Natal - Ano após ano, as iluminações de Natal fazem parte da paisagem humanizada, aclarando com todo o simbolismo a esperança de um mundo melhor. Sendo esta a maior das aspirações da humanidade e também, por analogia, da missão dos bombeiros, não é de estranhar a presença, na foto artística e documental destacada, da autoria de Arnaldo Madureira, de um veículo de socorro a apoiar trabalhos em luminárias.



Museu do Bombeiro de Sintra, uma mais-valia

"Um projecto dessa natureza pode e deve, inclusive, compreender uma abordagem multidisciplinar, porquanto Sintra mantém relação muito estreita e peculiar com a história dos bombeiros portugueses."



"Concretizar o Museu do Bombeiro de Sintra" foi uma das propostas apresentadas pelo actual Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Marco Almeida, para a área dos Bombeiros, quando se candidatou às últimas eleições autárquicas de 12 de Outubro.

De facto, no território sintrense, não faltam motivos de interesse em torno de uma temática tão específica, desde logo considerando a trajectória das nove associações humanitárias de bombeiros ali existentes, quase todas elas já centenárias e, portanto, com relevantíssimas folhas de serviço.

Trata-se de uma ideia similar àquela que nós próprios, aqui mesmo em FOGO & HISTÓRIA, no ano de 2009, chegámos a alvitrar num artigo sobre o aproveitamento, para fins museológicos, das antigas instalações do quartel-sede dos Bombeiros Voluntários de Queluz, localizadas perto do Palácio Nacional.

Consequentemente, oferece-nos congratular com a proposta avançada pelo edil, fazendo votos para que a mesma assuma o carácter de projecto e que este, por sua vez, se concretize e a sua oferta qualificada possa vir a ter fama internacional. 

A diversidade cultural de Sintra justifica a existência do Museu do Bombeiro, na condição natural de espaço de preservação da memória das gentes e das instituições que fazem o bem sem olhar a quem, assim como de educação para a cidadania.

Um projecto dessa natureza pode e deve, inclusive, compreender uma abordagem multidisciplinar, porquanto Sintra mantém relação muito estreita e peculiar com a história dos bombeiros portugueses.

Entre outros, vejamos alguns dos tópicos que, a nosso ver, têm cabimento no futuro Museu do Bombeiro, à luz da dinâmica e da variedade que consubstanciam a identidade da Instituição-Bombeiros em Sintra: grandes incêndios, trágicas inundações, acidentes ferroviários, socorro no mar, importantes congressos e demais eventos de renome, personalidades históricas, originalidade na organização administrativa e operacional e influência, a vários níveis, da iniciativa do associativismo e do voluntariado no todo nacional dos Bombeiros. Acresce, ainda, tudo o que possa ser antecedente versando a luta contra o fogo, nomeadamente, os engenhos de tracção braçal do século XVIII, construídos pelo Capitão das Bombas do Serviço de Incêndios de Lisboa, Mateus António da Costa, que guarneciam os palácios reais, e os toques de incêndio em freguesias do concelho, regulados por tabelas com variável número de badaladas.

Devendo também reunir condições físicas e tecnológicas sugestivas, somos de opinião que vale a pena criar um museu moderno onde se projecte, afirme e homenageie a acção dos bombeiros, sem esquecer a complementaridade do seu papel enquanto motor de desenvolvimento no seio das respectivas comunidades, nos domínios da assistência na saúde, do recreio, da cultura e do desporto. É, sem dúvida, um grande desafio, para solidez do qual fará sentido conquistar e envolver as associações humanitárias de bombeiros voluntários do município de Sintra, pois são elas proprietárias de acervo histórico susceptível de, numa base protocolar, ser disponibilizado no âmbito da curadoria de exposições temáticas e temporárias.

Quanto a isso convirá não deixar de observar a componente automóvel, que representa um dos principais pontos de atracção em museus da especialidade, podendo a mesma alavancar maiores cuidados de preservação e servir de pretexto para a mostra ao público dos veículos antigos mantidos nos quartéis do concelho, privilegiando uma lógica mais didáctica.

Parece-nos que o assunto desperta infindáveis ideias, inspiradas na imensidão de património material e imaterial.

Em 2027 completam-se os 100 anos da criação da Inspecção-Geral do Serviço de Incêndios do Concelho de Sintra, estrutura integrada na Câmara Municipal e que superintendia nos assuntos respeitantes às associações e corpos de bombeiros. Nesse tempo existiam apenas seis estruturas de bombeiros em Sintra, designadas por secções - Sintra (1.ª Secção), Colares (2.ª Secção), S. Pedro de Sintra (3.ª Secção), Queluz (4.ª Secção), Belas (5.ª Secção) e Almoçageme (6.ª Secção) - formando na globalidade, conforme norma regulamentar da Inspecção, o Corpo de Bombeiros Voluntários do Concelho de Sintra.

A centenária efeméride poderá constituir ocasião perfeita para a arrancada de um equipamento digno de figurar entre o Património Mundial da Humanidade, quer pelo inerente testemunho e legado de solidariedade e fraternidade, quer pela possível verossimilhança com a concepção poética do "glorious Eden", de Lord Byron.

Aqui fica a nossa sugestão.


Luís Miguel Baptista
Jornalista
lmb.fogo.historia@gmail.com



Na imagem (editada com IA):

O Presidente da República, António Óscar de Fragoso Carmona, ao tempo ainda General, condecorando o Comandante José Maria de Oliveira Júnior, dos Bombeiros Voluntários de Colares, com a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Sintra, quando da realização da primeira parada conjunta dos bombeiros do concelho de Sintra, em 2 de Setembro de 1928, no Campo do Palácio de Seteais, integrada nas Festas de Nossa Senhora do Cabo Espichel. À esquerda, destaca-se ainda o Comandante João Maria de Oliveira Cunha, dos Bombeiros Voluntários de Sintra, distinguido na mesma oportunidade.