"Velhos são os trapos"Eis um dos provérbios portugueses que nos parece adequado para intitular a nossa referência ao que aconteceu no quartel-sede dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede (BVC), quando a depressão Kristin passou recentemente por Portugal continental. Pois bem, a "Maria Regina", nome de baptismo atribuído à viatura aqui retratada, serviu de salvação ao Corpo de Bombeiros, garantindo parte da integridade das instalações e sobretudo de quem nelas se encontrava de serviço na noite da tempestade.



Fogachos 7: Quando a sirene tocou

Memórias do Comandante Fernando Sá | Jornalista e Bombeiro Voluntário



A Figueira da Foz vive uns momentos de intranquilidade, pelo menos os seus bombeiros. Ou viveu, pois neste momento não sabemos se o caso se remediou, como se impunha.

A capitania do porto mandou colocar no seu posto de sentinela ao mar uma sirene para aviso de nevoeiros ou outros casos especiais marítimos.

Mas sucedeu que o toque é precisamente igual ao da sereia dos bombeiros. E sucedeu ainda que os bombeiros figueirenses tiveram, mais de uma vez, alta noite, de abandonar os seus lares e correrem para o quartel. E nada. Não era aviso de fogo. Era sinal de funções marítimas.

A imprensa local atemorizou-se e lançou a pergunta: e se os bombeiros, por serem tanta vez enganados falham um dia, envolvidos na dúvida: será fogo?, será a sereia da capitania?

Que era preciso remediar logo o caso, era. Mas que os bombeiros falhassem, isso não. Iriam sempre, mesmo na dúvida.

A propósito lembra-nos o que um camarada sapador bombeiro contou.

Estava de folga. Um dia e uma noite livres. Sem preocupações de pronto a sair à primeira parte. Um dia e uma noite liberto. Uma folga, enfim, junto da família.

E veio a noite, tranquila, sem preocupações. Apenas o relógio-despertador avançava nos minutos.

Quando na hora própria o despertador teve de funcionar, o nosso camarada deu um salto da cama a pedir: dá-me as botas; dá-me as botas.

Mas a esposa logo o tranquilizou: Quais botas, homem! Não é fogo, é o despertador.

Era a força do hábito. Mesmo tranquilo e adormecido, tinha no seu subconsciente, absolutamente alerta, o seu espírito de bombeiro. Não falhara.


Lisboa, 1968



Foto: Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz