Arvoramento de Natal - Ano após ano, as iluminações de Natal fazem parte da paisagem humanizada, aclarando com todo o simbolismo a esperança de um mundo melhor. Sendo esta a maior das aspirações da humanidade e também, por analogia, da missão dos bombeiros, não é de estranhar a presença, na foto artística e documental destacada, da autoria de Arnaldo Madureira, de um veículo de socorro a apoiar trabalhos em luminárias.



Tempestade de fogo

Apelidado de "Segundo Grande Incêndio de Londres" (por as suas dimensões lembrarem o Grande Incêndio de Londres de 1666), recordamo-lo a propósito da passagem dos 80 anos sobre o fim da II Guerra Mundial. 

Contextualizando, de 7 de Setembro de 1940 a 10 de Maio de 1941, sucederam-se 57 noites de bombardeamentos por parte da força aérea alemã contra a Grã-Bretanha, com vista à sua rendição: a temerosa campanha Blitz. 

Porém, foi no dia 29 de Dezembro de 1940 que ocorreu a maior ofensiva e, por conseguinte, o mais devastador incêndio. 

Durante todo o seu período, a Blitz causou danos nefastos em Londres e noutras principais cidades, mas, surpreendentemente, não afectou o moral dos ingleses. Um exemplo de resiliência para a humanidade.

Mais de 24 mil bombas de alto explosivo e 100 mil bombas incendiárias, lançadas entre as 18 horas do dia 29 e as primeiras horas da manhã do dia seguinte, arrasaram importantes edifícios da capital britânica.

Londres transformou-se numa tempestade de fogo, em resultado da junção de mais de 1500 ignições, favorecida por várias formas de projecção.

A emblemática Catedral de São Paulo correu perigo mas escapou praticamente ilesa. Um forte dispositivo de bombeiros, montado no local a pedido do Primeiro-Ministro Winston Churchill, impediu a sua destruição, apesar de algumas pequenas chamas que tiveram de ser travadas ao longo da cobertura do templo.

Em toda a cidade sitiada, os trabalhos de extinção desenrolaram-se debaixo de enorme perigosidade, pois os bombardeamentos e as derrocadas das construções eram constantes.

Dadas as circunstâncias, houve momentos em que os bombeiros viram-se forçados a abandonar as suas posições procurando salvação nos abrigos antiaéreos mais próximos.

Nessa noite, morreram 14 bombeiros londrinos e 250 ficaram feridos, alguns dos quais com gravidade.

O peso das baixas verificou-se também ao nível do próprio material de combate a incêndios, que não resistiu aos efeitos do ambiente de destruição.

A estrutura de luta contra o fogo disposta no terreno, formada por efectivos da London Fire Brigade e da Auxiliary Fire Service, enfrentou ainda duras dificuldades no abastecimento de água, em virtude da danificação da rede pública. Valeu-lhe, apesar da maré baixa, o rio Tamisa, de onde as mangueiras de centenas de moto-bombas rebocáveis passaram a ser alimentadas.

Versando tão terrível capítulo da história contemporânea, e porque bem retratada a intervenção heroica dos bombeiros londrinos, oferece-nos sugerir o visionamento de um documentário produzido recentemente, com o título original "Britain And The Blitz" (A Grã-Bretanha e a Blitz), disponível na Netflix, contendo imagens inéditas, filmagens restauradas e relatos de sobreviventes.



Bombeiros Lisbonenses equipados com máscaras para protecção contra fumos e gases tóxicos, destacando-se sobre o guarda-lamas frontal uma agulheta de espuma atmosférica destinada à extinção de incêndios em substâncias inflamáveis


Portugal e a guerra química

Nos anos 30, perante um crescente clima de tensão político-militar à escala mundial, os serviços de incêndios eram desafiados pelos problemas relacionados com a guerra química, procurando, na medida do possível, ajustar-se a uma realidade iminente.

Entre nós, consta que os bombeiros foram pioneiros na abordagem pública do assunto, alvitrando sobre os perigos dos ataques aéreos com bombas incendiárias e gases asfixiantes, a defesa passiva da população e a necessidade de apetrechar os corpos de bombeiros para o efeito.

Nesse particular, além de outras acções de natureza teórica e prática, ficou célebre uma aparatosa simulação realizada em Espinho, a 11 de Julho de 1936, no âmbito do V Congresso Nacional de Bombeiros, com a participação da Aviação Militar.

Mais tarde, durante a II Guerra Mundial, conhecedoras da existência de planos e ameaças de invasão por parte das potências do Eixo e dos Aliados, as autoridades portuguesas entenderam precaver o país através da implementação de medidas obrigatórias de segurança da população e da organização de exercícios defensivos, nomeadamente em Lisboa, ao que os bombeiros nunca se negaram a participar.

À semelhança das fragilidades que indiciavam a impreparação de Portugal para um eventual cenário de guerra, também os bombeiros não dispunham de meios capazes de dar resposta a uma conjuntura de socorro completamente atípica e, como tal, desviante da rotina normal.

Contando praticamente, apenas, com a sua boa vontade, faltava-lhes não só preparação específica ao nível sanitário como equipamento de protecção adequado a ambientes contaminados por gases tóxicos. 

A par da rudimentaridade dos pronto-socorros e da insuficiência de lanços de mangueira, o número de auto-macas revelava-se limitado e a dotação de máscaras anti-gás não abrangia a totalidade de cada efectivo dos corpos de bombeiros. 

Segundo levantamento então efectuado no seio do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa, caso Portugal se visse envolvido no conflito, seriam necessários, na capital, mais 2500 bombeiros e 100 bombas.

Prova de que o objectivo de saber para servir já perseguia os bombeiros portugueses, duas das suas mais destacadas personalidades, Joaquim Gourinho e Guilherme de Carvalho, deslocaram-se a Londres e às cidades próximas atingidas pelos bombardeamentos, a fim de se inteirarem da estruturação dos bombeiros ingleses, da experiência vivida durante a Blitz e, sobretudo, da preparação da defesa passiva.

Talvez por cautela de ordem diplomática, visto haver receio de um possível ataque da potência alemã, à soberania portuguesa, com o apoio espanhol, não foi divulgada a visita de trabalho, que decorreu entre 12 e 21 de Novembro de 1941, através de convite governamental.

Coincidência ou não, no ano seguinte, por via do Decreto-Lei n.º 31956, de 2 de Abril de 1942, o Governo instituiu a Defesa Civil do Território (DCT), sob a esfera de acção da experimentada Legião Portuguesa, incumbindo-a de "assegurar o regular funcionamento, em tempo de guerra ou de grave emergência, das actividades nacionais". 

Num tempo marcado pela reaproximação de Portugal ao seu velho aliado, a DCT baseou-se em princípios do sistema de defesa civil implementado três anos antes no Reino Unido, concorrendo para o efeito a deslocação àquele país, por iniciativa oficial, de uma delegação de elementos da Cruz Vermelha Portuguesa.





Pesquisa/Texto: Redacção F&H
Foto: Arquivo F&H