Socorro sobre quatro rodas - O automóvel em Portugal está de parabéns. Faz 130 anos que circulou o primeiro carro de turismo pelas estradas nacionais, um Panhard & Levassor, adquirido na capital francesa pelo Conde Jorge d'Avillez. Tanto a introdução como a generalização do seu uso, nos hábitos dos portugueses, levaram tempo, por razões económicas. Todavia, na actividade dos bombeiros, foi adoptado relativamente cedo para transportar pessoal e material dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses (BVL), pioneiros do advento da motorização no contexto do serviço de incêndios e do serviço de saúde.



Imagens com história em tempo de centenário

Pesquisa/Texto: Redacção F&H
Fotos: Fotold e Arquivo F&H

São cada vez mais e diferenciados os contributos informais para o conhecimento, divulgação e preservação da história dos bombeiros em Portugal.
O site Fotold, cujo acervo de imagens desafia os historiadores do que quer que seja, é exemplo disso. No caso da temática com que nos ocupamos, a quantidade e a variedade ali reunidas obrigam-nos a ser selectivos. Para esta edição, atentos ao recém-celebrado centenário dos Bombeiros Voluntários de Belas (BVB), escolhemos fotos da inauguração do seu quartel-sede, e na base das mesmas apresentamos uma perspectiva anotada do evento.



"Para o dia festivo do seu 43.º aniversário, os Bombeiros Voluntários de Belas tinham integrado no programa das comemorações um simulacro de incêndio.

Essa parte do programa começou a cumprir-se à noite, com diversos exercícios. Porém, quando se preparava para o simulacro, a sereia, no seu estridente som habitual, funcionou, é certo, mas para fazer avançar pessoal e material para um fogo a sério, que se desenvolvia na serra da Carregueira. E, assim, do simulacro se passou à realidade."

Este facto insólito, noticiado em 1968 e aqui recordado para efeitos de contextualização do espaço, teve exactamente como pano de fundo a casa-escola e o demais edificado que se observa, localizado na Rua Eduardo Ferreira Pinto Basto, topónimo o qual homenageia a memória do principal patrono da instituição, quando fundada há 100 anos (15 de Julho de 1925).

O acto inaugural do novo quartel-sede dos BVB, ocorrido a 20 de Maio de 1956, viu-se integrado nas comemorações do 30.º aniversário da designada "Revolução Nacional" (golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, que derrubou a Primeira República e instituiu a ditadura militar em Portugal), sob a influência da Câmara Municipal de Sintra, que de acordo com a ideologia do Estado Novo procurou tirar proveito político do evento.

Na verdade, deslocaram-se a Belas algumas das figuras proeminentes da época, com destaque para o Presidente da edilidade, César Moreira Baptista, mais tarde substituto de António Ferro na direcção do Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo e membro dos governos presididos por Marcello Caetano, tendo chegado a ocupar a pasta do Interior, actual Administração Interna.

Por sua vez, o então Ministro do Interior, Joaquim Trigo de Negreiros, que no mesmo dia inaugurou o novo quartel dos Bombeiros Voluntários de Mirandela, fez-se representar pelo Presidente do Conselho Nacional dos Serviços de Incêndios (CNSI), António Pires de Lima.

Conforme descrito pelo Jornal de Sintra, a recepção àquele responsável "constituiu um acto brilhante e apoteótico", para o que concorreram, inevitavelmente, as honras protocolares prestadas por um número alargado de representações de bombeiros, tanto os do concelho de Sintra como os de localidades vizinhas, incluindo a cidade de Lisboa.

Recorde-se que o CNSI, criado há cerca de dez anos na esfera da Direcção Geral de Administração Política e Civil, organismo de que falaremos em breve, tinha como atribuição orientar as actividades e serviços de socorro exercidos pelos corpos de bombeiros.












O acontecimento teve um enorme impacto local e social. Veja-se a multidão presente que acompanhou, sem arredar pé, os vários actos programados para a ocasião.

Ao mesmo tempo, e se bem que os registos fotográficos apresentem, apenas, vistas parciais das instalações, estas são suficientemente elucidativas para concluirmos que, à partida, a dimensão do imóvel excedia as necessidades dos Bombeiros Voluntários de Belas. Ou seja, tratava-se de um quartel modelar, construído a pensar no futuro, reunindo características especiais: "(...) um amplo parque de material, um salão de viaturas 22x11 metros, posto de socorros, instalações sanitárias, balneários, camarata, gabinetes de direcção e do comando, salas de bilhar e bar, etc., além de amplo e arejado salão de festas, no 1.º andar. No exterior, a 'Casa-Escola Francisco Filipe' (benemérito da instituição), com três andares."

A casa-escola foi o primeiro edifício a ser erguido, existindo desde 1950 e vendo-se consubstanciado numa infraestrutura robusta e indispensável à preparação técnica dos elementos do Corpo de Bombeiros, no domínio do combate a incêndios em prédios urbanos.

Exactamente com a finalidade de mostrar ao público a aptidão no socorro, após a inauguração da obra e a sessão solene alusiva ao momento festivo, realizou-se um aparatoso simulacro de incêndio, onde, segundo testemunhado pelo Jornal de Sintra, "18 decididos e ágeis voluntários deram provas do seu valor e dos seus conhecimentos, findo o que receberam uma estrondosa salva de palmas".

Francisco Filipe, Presidente da Direcção, e José Fernandes Gomes, Comandante, formaram a dupla que liderou a fase de melhoria contínua.

Do empreendedorismo então verificado resultou o mais moderno quartel de bombeiros do concelho de Sintra. Até ao momento as melhores instalações haviam pertencido aos Bombeiros Voluntários do Orfanato Escola de Santa Isabel - Albarraque, seguidos dos Bombeiros Voluntários de Sintra. Todos os demais corpos de bombeiros sediados no território sintrense - Agualva-Cacém, Almoçageme, Colares, Queluz e S. Pedro de Sintra - dispunham de aquartelamentos rudimentares.

Com o passar dos anos, o que no início parecia ser demais para o movimento operacional, começou a revelar sinais de exiguidade, motivando pontuais intervenções de alargamento do espaço construído.

Recentemente, pela mesma razão de crescimento da estrutura interna do Corpo Bombeiros, efectuou-se a maior ampliação de sempre, materializada na construção de novas e modernas áreas de serviço, contíguas ao edifício de origem.




Quartel primitivo da Praça 5 de Outubro

Antes de 1956, a Corporação de Bombeiros Voluntários de Belas (denominação em uso até 2009, alterada nos termos do Regime Jurídico das Associações Humanitárias de Bombeiros) esteve instalada no edifício acima retratado, na Praça 5 de Outubro, em pleno centro da freguesia.

Ainda existente e bem conservado, tem uma localização privilegiada. Fica junto ao Paço Real de Belas, construção histórica que chegou a pertencer a D. João I, curiosamente, o monarca que promulgou as primeiras providências de luta contra o fogo em Portugal. 

As paredes do antigo quartel foram levantadas por elementos do próprio Corpo de Bombeiros, facto devido aos muitos operários da construção civil que faziam parte do efectivo. 
 
Construído, portanto, de raiz, em terreno adquirido com o apoio da população, através da iniciativa da comissão de sócios fundadores dos BVB, o imóvel nunca deixou de ser propriedade da instituição, encontrando-se hoje concessionado.
 
O início do seu funcionamento reporta a 1927. Mais tarde, acrescentaram-lhe uma casa-esqueleto para manobras de escadas e manobras de salvados.

Nesse período, o Corpo Activo dos Bombeiros Voluntários de Belas contava com cerca de 15 homens, albergando o quartel uma bomba de caldeira, um transporte de escadas e mangueiras e uma maca rodada em lona. Somente no ano de 1928 surgiu o primeiro veículo automóvel.