Arvoramento de Natal - Ano após ano, as iluminações de Natal fazem parte da paisagem humanizada, aclarando com todo o simbolismo a esperança de um mundo melhor. Sendo esta a maior das aspirações da humanidade e também, por analogia, da missão dos bombeiros, não é de estranhar a presença, na foto artística e documental destacada, da autoria de Arnaldo Madureira, de um veículo de socorro a apoiar trabalhos em luminárias.



Em continência à resiliência histórica

Um olhar crítico sobre história recente, versando factos frequentes que parecem apagados da memória, mais por inoperância dos homens do que pelo efeito do tempo fugaz. 



Eis, em sentido figurado, o gesto de saudação formal com que se nos oferece principiar este artigo de opinião.

De facto, razões não nos faltam para o efeito, a começar pela resiliência dos bombeiros portugueses, qualidade também ela já histórica.
 
Não é de hoje, é de sempre, que os mesmos acalentam sonhos e perseguem objectivos. Legítimos, sem dúvida; inatingíveis, por força de diversas e permanentes vicissitudes.

Por tradição e cultura, estamos na presença de uma instituição favorecida em princípios e valores. No entanto, depauperada do ponto de vista monetário, daí habituada a fazer, como nenhuma outra organização do nosso sistema social, do impossível possível.
 
Em todos os tempos, e sobretudo nos últimos anos, do lado da governação, os bombeiros têm recebido rasgados elogios ao seu altruísmo e palavras de prometimento sobre a melhoria das condições operacionais, financeiras e sociais.
 
Talvez um capítulo fosse insuficiente para descrever as vezes que ministros e secretários de Estado garantiram, a pés juntos, a execução de medidas de efectivo reconhecimento, sustentabilidade e incentivo.
 
Infelizmente, a memória e a história confirmam-nos que tudo não tem passado de repetidos exercícios de retórica, mas os bombeiros, sempre iguais a si próprios, autênticos e responsáveis, nunca se demitiram da sua função, continuando a servir o país, mau grado os créditos que lhes são devidos.
 
Mais um Verão passou. E, de novo, o fogo não foi um adversário fácil de dominar. Algum ruído contrastou com o cristalizado estoicismo de todos os combatentes, nos vários teatros de operações. Um manto negro voltou a cair sobre a floresta e a simbolizar luto colectivo pela perda de mais um bombeiro vitimado em serviço: o Subchefe Daniel Agrelo, dos Bombeiros Voluntários da Covilhã.

Na linha do que é habitual, o poder de direcção política associou-se ao momento de pesar, solidarizando-se. Apesar de tudo, num ápice, esqueceu-se de prosseguir solidariamente na sua acção, não só fazendo ouvidos moucos perante os problemas que penalizam o sector como desconsiderando, no Parlamento, o conceito de desgaste rápido aplicável à profissão de bombeiro. Fica para a história! 

Até quando os bombeiros vão ter de recorrer a sucessivos argumentos de peso, a começar pelos seus mais de 600 anos de existência, na tentativa de conquistarem tudo aquilo que há muito tempo deveria ser seu de pleno direito?

Até quando vamos ter de continuar a acrescentar, à narrativa histórica factual, a inércia dos governos e, por conseguinte, a castração da matriz organizacional dos bombeiros portugueses?


Luís Miguel Baptista