Arvoramento de Natal - Ano após ano, as iluminações de Natal fazem parte da paisagem humanizada, aclarando com todo o simbolismo a esperança de um mundo melhor. Sendo esta a maior das aspirações da humanidade e também, por analogia, da missão dos bombeiros, não é de estranhar a presença, na foto artística e documental destacada, da autoria de Arnaldo Madureira, de um veículo de socorro a apoiar trabalhos em luminárias.



Os incêndios florestais no dizer de Nemésio

Pesquisa/Texto: Redacção F&H
Foto: Marques Valentim

Sempre atento ao mundo à sua volta, pouco tempo antes de falecer, Vitorino Nemésio (1901-1978) dissertava aos microfones da Radiodifusão Portuguesa (RDP) sobre os incêndios florestais ocorridos em Portugal. Vale a pena ouvir o registo disponibilizado pela RTP Arquivos. 



A temática não tinha o impacto dos dias de hoje, mas o grande intelectual entendeu considerá-la no seu programa intitulado "O Que Eu Tenho a Dizer", transmitido no Programa 1 da RDP, actual Antena 1.

O aumentado número de incêndios nos verões dos últimos anos justificou, pois, a escolha de Nemésio, indisfarçavelmente impressionado.

Entre as considerações produzidas com a comunicabilidade e a humildade que lhe eram peculiares, são dignos de reparo nesta introdução o elogio aos bombeiros e o pensamento elevado versando a gestão da floresta, seus problemas e suas necessidades.

Aliás, porque contemporâneas, relacionadas e caracterizadoras da conjuntura prevalecente, antes de o leitor aceder ao documento sonoro, recomendamos que se detenha nas palavras subscritas pelo então Conselho Administrativo e Técnico da Liga dos Bombeiros Portugueses, por ocasião do XXII Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, realizado na cidade da Guarda, de 1 a 5 de Setembro de 1976:

"Enquanto labaredas indómitas ateadas por mãos criminosas lambem, em ritmo nunca visto, as serras de Portugal devorando o já depauperado património colectivo, vamos reunir-nos em Congresso.

Desesperados de tanto crime de arder, cansados de tanto mendigar e sugerir, mas inconformados e firmemente decididos a não cruzar os braços frente ao aumento dos sinistros e à falta de meios adequados para os combater, subiremos à serra (hoje calcinada) da Guarda para dizermos bem alto ao Povo e ao Governo de Portugal que, como voluntários, que somos na quase totalidade, continuaremos a afivelar o capacete e o machado sobre as fardas de trabalho das oficinas, dos campos e dos escritórios onde ganhamos o pão dos nossos filhos, mas não queremos continuar, isso não, eternamente à espera de soluções que salvem da morte lenta a causa do socorrismo humanitário e nos arranquem ao desespero da luta pela sobrevivência.

Conscientes de que temos sobrevivido quase por milagre, preferimos fazer milagres sem ter de viver deles."

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva nasceu a 19 de Dezembro de 1901, na Ilha Terceira, nos Açores, e faleceu a 20 de Fevereiro de 1978, em Lisboa. Professor da Faculdade de Letras de Lisboa, foi poeta, ficcionista, ensaísta, cronista e crítico literário português, entre outras qualidades de verdadeiro génio.