Fotos: Arquivo Municipal de Oeiras
O voluntariado nos Bombeiros está instituído em Portugal desde 1868 (fundação da Companhia de Voluntários Bombeiros, actuais Bombeiros Voluntários de Lisboa), mas há quem pareça decidido a castigá-lo através da falta de incentivos. O assunto não é novo. Motiva, aliás, há muitos anos, análise e discussão no seio do sector. Em 1972, o prestigiado Comandante Augusto Madureira, dos Bombeiros Voluntários de Algés (BVA), indagado pela imprensa, colocava o dedo na ferida, afirmando e, assim, parecendo antever o futuro: "O problema é grave, mesmo dramático, e não sei bem ao certo (embora já o possa prever) qual será o amanhã desta e doutras corporações similares, quando os quadros activos dos 'quarenta e picos' deixarem de exercer o seu contributo eficaz. Será o caos, a morte trágica de um sonho maravilhoso que os homens e as suas contradições, tão levianamente estão a destruir."

Augusto Araújo de Campos Madureira (1907-1984), que teve os Voluntários de Lisboa como base de aprendizagem formal, onde se alistou no ano de 1929, foi um dos comandantes de bombeiros mais dedicados e competentes do país. Liderou os destinos dos BVA, de modo invulgar, durante mais de 30 anos, chegando a acumular as funções de Comandante e Presidente da Direcção. Agraciado, em 1952, com o grau de Cavaleiro da Ordem da Benemerência, pelo mérito dos seus actos desinteressados e abnegados no serviço prestado à colectividade, dizia ser "um bombeiro de ontem e de hoje, a pensar no amanhã".
No diagnóstico apresentado acerca da problemática do voluntariado, apontava como principais causas da baixa adesão às fileiras dos corpos de bombeiros: a existência de actividades mais atractivas e melhor compensadas, nomeadamente na área do desporto; e o fenómeno da emigração massiva despoletado nos anos 60 e que continuava a surtir efeitos na sociedade portuguesa.
"A juventude afasta-se dos bombeiros! A época em que vivemos, parece não ser de sacrifícios e de altruísmos", lamentava o Comandante Madureira.
Defensor acérrimo da operacionalidade, sustentada na qualificação da actividade de bombeiro, a sua preocupação em torno da falta de voluntários tornava-se ainda mais evidente, porquanto considerava que os corpos de bombeiros, olhando ao avanço e aos desafios da vida moderna, tinham de se apresentar "amplamente actuantes e funcionais". Caso contrário, poderia correr-se o risco de ser questionável a continuidade da prestação do socorro dentro dos moldes convencionais.
Para Augusto Madureira, a palavra de ordem era "apetrechar", justificando o seu ponto de vista deste modo consciente e responsável: "A evolução técnica, processada nos meios de combate a uma variada gama de sinistros, passou a exigir um treinamento prolongado e especializado ao bombeiro da era actual."
Por conseguinte, no seu entender, ainda, já não bastava ser-se "corajoso e bem preparado fisicamente" e também haviam-se tornado ineficazes, apenas, "meia dúzia de lições teóricas".
Catorze meses consistia, segundo o Comandante, o tempo mínimo adequado à formação de um bombeiro, sendo-lhe exigidos "múltiplos conhecimentos".
"Enquanto existirem voluntários, considero um dever cívico auxiliá-los e nunca amesquinhá-los, já que numa época de egoísmos e hipocrisias, ele ainda constitui um exemplo que consegue dignificar a condição humana." Um ponto de vista, directo e sem rodeios, enfatizado por Augusto Madureira, quando o contexto social dos bombeiros portugueses clamava, unanimemente, através de palavras não menos apelativas: "Doutrinemos a dimensão do Século II do Voluntariado, olhos postos no passado e braços e inteligências alargados para a distância, para Futuro."

O Comandante Augusto Madureira em ocasião solene dos Bombeiros Voluntários de Algés, com o então Governador Civil do Distrito de Lisboa, Afonso Marchueta
Um problema que parecia não ter solução
Mas, antes de 1972, outras figuras proeminentes agiram de igual modo denunciando a falta de bombeiros nas então vulgarmente designadas "corporações".
A própria televisão pública encarregou-se de abordar o problema, por intermédio do popular comunicador Artur Agostinho, que no seu programa "Curto Circuito", talk-show de reconhecido êxito transmitido semanalmente em horário nobre, na RTP 1, chegou a apresentar um apontamento de reportagem efectuado nos Bombeiros Voluntários do Estoril, entrevistando o Comandante Amílcar Carvalho.
O número de bombeiros voluntários no país, integrados nos quadros activos, rondava os 12 mil, num total geral de cerca de 17 mil bombeiros, entre voluntários, municipais, sapadores e privativos.
Diga-se, a bem da verdade histórica, porque omitida ou timidamente referida por compreensíveis e apertadas razões de ordem política, o facto da mobilização de milhares de jovens, em idade de cumprimento do serviço militar, para combaterem nas três frentes da Guerra Colonial Portuguesa (1961-1974), contribuiu, nesse tempo, para o enfraquecimento do voluntariado.
Ainda que a Liga dos Bombeiros Portugueses tenha chegado a sensibilizar o Governo no sentido de atender ao interesse de os elementos dos corpos de bombeiros serem isentos de mobilização, por "fazerem parte preponderante e essencial da Defesa Civil do Território", a medida e o argumento não colheram qualquer tipo de cedência.
Inconformada com a situação e empenhada na transformação da Instituição-Bombeiros, uma nova geração de dirigentes entendeu levar o assunto ao XIX Congresso dos Bombeiros Portugueses, reunido em Aveiro, de 9 a 13 de Setembro de 1970, sob a forma de teses e comunicações. Entre as primeiras, destacou-se "A idade de recrutamento e seus reflexos na vida das Corporações", da responsabilidade do então Tenente José Francisco do Rio França de Sousa, Comandante dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses.
No trabalho partilhado com os congressistas, o responsável propunha que fosse alterada a idade de admissão na categoria de aspirante, passando a mesma, desde que reunidas condições de aptidão física, dos 18 para os 16 anos. Pois, "os poucos que acabam por entrar como aspirantes o fazem quase na idade limite para o ingresso nas Forças Armadas", afirmou na ocasião, sucedendo-se o mesmo com a passagem a bombeiro de 3.ª classe.
Segundo França de Sousa, que mais tarde comandou também os Bombeiros Voluntários de Algés, a mudança proposta permitiria que os corpos de bombeiros tivessem "maior número de aspirantes" e "escolas de bombeiros mais numerosas". Além disso, as associações poderiam ver devidamente compensado, durante maior espaço de tempo, o investimento efectuado na dotação de recursos para novo pessoal, designadamente, instrução, equipamentos e fardamentos.
A boa intenção colocada na abordagem do assunto de nada valeu. Tudo permaneceu na mesma ao nível da regulamentação geral aplicada aos corpos de bombeiros e, por conseguinte, do voluntariado, prevalecendo as disposições em vigor, ou seja, a admissão de aspirantes a partir dos 18 anos de idade.
Tratou-se de uma oportunidade de solução, simples e eficaz, frustradamente perdida, à semelhança de tantas outras destinadas a potenciar as estruturas dos Bombeiros e que nunca mais deixaram de estar na ordem do dia, sem obterem, no entanto, resposta de quem de direito. Foram precisos alguns anos e a instauração de novo regime no país para que se vislumbrassem sinais de mudança, embora sempre aquém do necessário, conforme comprovado ao longo dos tempos.
"(...) diligenciar pela justa dignificação e indispensável consciencialização, pessoal e colectiva, dos bombeiros; e providenciar no sentido da valorização e fomento do voluntariado", foi uma das conclusões resultantes do célebre Congresso de Aveiro-70. E hoje, que juízo se ofereceria formar?
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