Arvoramento de Natal - Ano após ano, as iluminações de Natal fazem parte da paisagem humanizada, aclarando com todo o simbolismo a esperança de um mundo melhor. Sendo esta a maior das aspirações da humanidade e também, por analogia, da missão dos bombeiros, não é de estranhar a presença, na foto artística e documental destacada, da autoria de Arnaldo Madureira, de um veículo de socorro a apoiar trabalhos em luminárias.



Soldados da Paz... e da Vida!

Pesquisa/Texto: Redacção F&H
Fotos: Arquivo F&H

O nascimento de bebés em ambulâncias dos bombeiros é sempre um facto noticioso, pelo seu impacto invulgar. E, nos últimos tempos, mais ainda, por razões diferenciadas das habituais que se prendem com o sério problema da escassez de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde.
Crê-se que os bombeiros portugueses nunca tenham efectuado, num só ano, tantos partos. Para memória futura, em 2025, mais de 60 bebés nasceram fora das maternidades. Um autêntico regresso ao passado, conforme nos sugere a história que recuperamos, ocorrida há 81 anos.




Em 1944, Portugal era um país subdesenvolvido apresentando insuficiências ao nível da prestação de cuidados de saúde materna, obstétrica e neonatal.

O parto consistia, fundamentalmente, num "acto doméstico", auxiliado por parteiras, na sua maioria, mulheres com experiência mas sem qualquer tipo de formação técnica, agindo de modo muito rudimentar e precário. As consequências, por vezes, viam-se configuradas em graves complicações, tanto para as parturientes como para os recém-nascidos. As taxas de mortalidade materna e perinatal eram elevadas.

No plano da Instituição-Bombeiros, a realidade era um pouco diferente. O seu serviço de saúde, apesar de somente incrementado a partir de 1951, se necessário fosse, encontrava-se preparado para dar assistência numa situação de parto, mercê da organização a que estava sujeito, envolvendo médicos, farmacêuticos e enfermeiros que mantinham o pessoal instruído sobre procedimentos básicos.

Foi nessa contextualização geral que se deu o serviço prestado pelos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC), objecto de narrativa histórica.

Na madrugada de 22 de Agosto de 1944, o Corpo de Bombeiros recebeu um pedido do então Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Sintra para transportar Gertrudes Maria à Maternidade Dr. Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa.

Quando a ambulância reproduzida na foto seguia a sua marcha nas proximidades do edifício da MAC, situado na Rua Viriato, a parturiente deu à luz uma menina.

O Diário de Notícias, na edição do dia seguinte, revela que no interior do veículo seguiam enfermeiras e, como tal, assistiram ao parto.

Desconhecemos se o estado da mulher inspirava maiores cuidados, o que nos parece provável, justificando atenção médica numa unidade de saúde mais capacitada do que o popularmente designado Hospital de Sintra. Sabe-se, isso sim, que os pais da recém-nascida, sensíveis a tudo o que se passara, decidiram registá-la com o nome Guilhermina, o mesmo que anos antes havia sido atribuído à auto-maca e figurava numa placa de prata colocada na respectiva carroçaria, em homenagem a Guilhermina Santos, benemérita que oferecera tão utilitário meio de socorro aos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém. 

Ao tempo, o atendimento na Maternidade Dr. Alfredo da Costa obedecia a um critério de estratificação social. 

Em +Lisboa - Lisboa vista pela ciência, projeto editorial multiplataforma da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, um artigo de Ana Sofia Paiva explícita tão curioso quanto discriminatório aspecto:

"(...) as mulheres que estavam doentes e/ou grávidas eram identificadas por três categorias: as pensionistas, aquelas que podiam pagar a sua hospitalização; as porcionistas, as que que só podiam pagar parte das despesas do internamento ou aquelas que 'se apresentavam através de entidade municipal ou administrativa'; e as indigentes, mulheres mais pobres e que não tinham meios para pagar as despesas hospitalares."



Maternidade Dr. Alfredo da Costa


Uma "mártir" do serviço de saúde

A título de complemento, registe-se que a elegante auto-maca, marca Citroën (modelo Rosalie, produzido entre 1932 e 1938), a primeira que os BVAC possuíram, foi inaugurada no dia 25 de Setembro de 1939 e chegou a ser apelidada de "mártir", por ver-se obrigada a prestar serviço em todo o concelho de Sintra, percorrendo longas distâncias e desgastando-se significativamente.

Segundo pesquisámos, no ano de 1944, efectuaram-se 105 conduções de feridos e doentes, número importante para a época, apesar do veículo ter chegado a estar inactivo durante alguns meses, devido à falta de pneus. Em sua substituição, o serviço de saúde era assegurado através do recurso a um pronto-socorro, sendo toda e qualquer vítima acomodada numa maca tipo padiola disposta na parte traseira do automóvel.

Pródigos em encontrar soluções para os problemas, de modo a que a população não fosse privada de assistência, os bombeiros resolveram colocar umas rodas diferentes e a auto-maca voltou a circular, por mérito da capacidade de improvisação de gente conscienciosa e comprometida com a solidariedade humana.

Apenas decorridos dois anos sobre a sua requisição às entidades competentes é que foram conseguidos os pneus adequados, imagine-se. 

Nesse período, ainda, como se não bastassem as vicissitudes, os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém desembolsaram consideráveis importâncias na manutenção mecânica e no abastecimento de combustível, sem direito a qualquer tipo de apoio de terceiros, pois até a própria cobrança do serviço prestado aos utentes tornava-se penosa, em razão de os mesmos não disporem de meios financeiros. Sinais de tempos já de si difíceis, agravados pelas restrições resultantes da II Guerra Mundial, e que pese embora a neutralidade de Portugal não deixaram de se fazer sentir, dura e prolongadamente, na vida quotidiana.