Socorro sobre quatro rodas - O automóvel em Portugal está de parabéns. Faz 130 anos que circulou o primeiro carro de turismo pelas estradas nacionais, um Panhard & Levassor, adquirido na capital francesa pelo Conde Jorge d'Avillez. Tanto a introdução como a generalização do seu uso, nos hábitos dos portugueses, levaram tempo, por razões económicas. Todavia, na actividade dos bombeiros, foi adoptado relativamente cedo para transportar pessoal e material dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses (BVL), pioneiros do advento da motorização no contexto do serviço de incêndios e do serviço de saúde.



Vestir de paz, servir com humanidade

Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista
Fotos: Arquivo F&H e Mário Novais/Fundação Calouste Gulbenkian

Quando ouvimos falar de bombeiros, o que nos vem de imediato à ideia é a valentia em forma de gente, trajada de azul escuro e protegida por elegante capacete.
A farda do bombeiro conheceu até
hoje diversas evoluções. Pois bem, longe de pretendermos ser "alfaiates por medida", mas procurando "dar ponto" para que a história não se perca, recuemos aos tempos em que "andar na moda" consistia, praticamente, no uso de um só modelo de fardamento, sem olhar a aspectos de ocasião.



Consideramos que este não é um tema fácil de se abordar.

A escassez de fontes de informação acerca de épocas recônditas faz com se conheça somente, de modo exacto, as realidades sujeitas a normas e regulamentos que se perpetuaram no tempo, contendo as suas disposições curiosos pormenores.

À adopção de fardamento para o pessoal afecto aos serviços de incêndios e/ou corpos de bombeiros antecedeu a utilização de uma simples braçadeira. Na verdade, foi esta a primeira opção tomada, por necessidade de identificar todos aqueles que se encontrassem incumbidos de comparecer aos fogos. De sublinhar que a extinção dos incêndios decorria em condições confusas e desordenadas, justificando-se, ainda mais por isso, uma certa disciplina funcional na apresentação dos intervenientes no socorro.

A evolução dos serviços não só aconteceu ao nível da invenção e do aperfeiçoamento dos materiais, na incessante procura de agilizar o trabalho de ataque às chamas. O lento processo de transição para a existência de estruturas formalmente constituídas, com orgânicas e hierarquias próprias, primeiro sob a égide de algumas câmaras municipais e mais tarde no âmbito das associações de bombeiros voluntários, implicou, também, a adopção de fardamentos e distintivos consoante as funções cometidas a cada um dos envolvidos na cadeia de resolução dos sinistros.

Inspirados nos uniformes militares, os modelos adoptados pelos bombeiros não olhavam a factores de rigorosa protecção mas sim, quase em exclusivo, a princípios de aparência estética, procurando transmitir uma imagem crível. O capacete e a espia completavam a indumentária e serviam de instrumentos de salvaguarda.

A propósito, do Regulamento dos Bombeiros Voluntários do Porto, de 1879, transcrevemos, na íntegra, um dos artigos respeitantes aos uniformes, cujo teor se relaciona com as considerações aqui produzidas:

"O fardamento que é feito a expensas dos socios activos, constará de casaco à militar, de panno
azul escuro, de seis botões de metal amarello, com dous machados em cruz e corôa real e egual numero
nas petrinas das abas; cada uma das mangas deverá ter um galão de seda a formar um canhão em bico com um transelim dourado ao meio do galão. A gola será coberta de panno escarlate, e o casaco avivado, ficando na parte superior um pequeno vivo do mesmo panno do casaco. A calça será de largura regular, mescla cinzenta escura. O bonet será de panno azul escuro, com um vivo muito estreito de panno escarlate e com botões de panno asul, cuja circumferencia tambem terá um vivo ascarlale, muito estreito. A palla do bonet será um pouco maior que as pallas dos bonets dos officiaes de infanteria e de um lado da golla do casaco será collocada o n.º do bombeiro voluntario e do outro o n.º da secção a que pertence."

Os cortes não garantiam grande comodidade e muito menos favoreciam a coordenação de movimentos, compreendendo a sua confecção o recurso a tecidos pesados, o que se via agravado quando encharcados de água das mangueiras ou da exposição à chuva. As próprias fibras dos tecidos de nada tinham de ignifugo, pelo que o bombeiro agia em condições de permanente risco para a sua integridade física, de resto, o que se sucedeu durante décadas.

"Como é então que se dá uma farda cheia de chumaços, com charlateiras, a um bombeiro que tem de operar trabalho de força, destreza e agilidade? - interrogava voz crítica em 1889, dando o seguinte testemunho:

"É por não terem comprehendido isso, que não raras vezes temos visto bombeiros desabotoarem as fardas desde o primeiro até ao último botão, retirarem os cintos e espias para poderem arrombar uma porta, desforrar um tecto, cortar um pedaço de soalho, fazer um corte em um telhado, etc., etc. (...)".

Penosa por natureza, a actividade dos bombeiros tornava-se assim mais embaraçosa.

Por conseguinte, não se ficando apenas por identificar o problema, a mesma voz crítica avançava, com conhecimento de causa, como possível solução:

"Embora o bombeiro possua um fardamento mais brilhante para os actos solemnes parece-nos comtudo, que deve possuir para o serviço ordinario um fato que lhes não prenda os movimentos e em que se note a completa ausencia de metais, vivos, e toda essa magna caterva de arrebiques de diversas especies, de que os bombeiros se acham cobertos da cabeça até aos pés."

Refira-se que o próprio alargamento da missão dos bombeiros a outras áreas de actuação não motivou, no imediato, a harmonização do fardamento face a novos cenários de adversidade. Levou anos, até à adopção do fato de zuarte (macaco), o uso de um único modelo de farda.

Nesse período não existia regulamentação geral. As entidades detentoras de corpos de bombeiros tinham liberdade de escolha, razão pela qual a diferença de uniformes e distintivos era nota dominante, inclusive, ao nível da própria cor dos tecidos. Como nota de curiosidade, ocorre-nos apontar que os Bombeiros Voluntários de Fafe chegaram a trajar de castanho. Esta conjuntura veio a ser mudada, gradualmente, por acção da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), que após a sua fundação, em 1930, entendeu criar requisitos de normalização, elaborando para o efeito um plano de uniformes destinado às suas filiadas.

Apesar de tudo, uns continuaram a usar dólmen e calça de fazenda azul e outros dólmen e calça de cotim cinzento.

O fardamento de cotim militar, que se manteve ao longo de muitos anos, surgiu em princípios do século XX, nos Bombeiros Voluntários de Barcarena, e encerra uma história surpreendente. No primeiro tomo de "Elementos para a História Bombeirística de Portugal", da autoria do Comandante Júlio Alexandre da Silva, é referido que a farda em apreço gerou lamentável troça por parte dos bombeiros de Lisboa, alcunhando os seus utilizadores de "macacos, ursos, ratos e de nomes de outros animais de pêlo de igual côr". No entanto, refere o autor, "quando as primeiras tropas embarcaram para a guerra, vestindo uniforme igual, cessaram os dichotes aos bombeiros de Barcarena e passaram todas as corporações a usar de igual uniforme".



Farda dos finais do século XIX (Bombeiros Voluntários de Santarém)


Uniforme de cotim (Bombeiros Voluntários de Sesimbra)


Farda de trabalho oficializada no início do anos 60 do século XX


Primeiro plano oficial de uniformes 

Data de 11 de Setembro de 1946 o Decreto n.º 35857, que promulgou o primeiro regulamento dos corpos de bombeiros e com ele, também, o primeiro plano oficial de uniformes, facto geralmente desconhecido ou ignorado. Foi substituído, sem alterações de maior, através do Decreto n.º 38439, de 27 de Setembro de 1951.

Mais tarde, por via da Portaria n.º 18031, de 31 de Outubro de 1960, foram introduzidos acertos aos diferentes tipos de uniforme, com vista a ultrapassar experimentadas lacunas e a enquadrar os corpos de bombeiros voluntários num regime de modelos semelhante ao dos batalhões de sapadores bombeiros e dos corpos de bombeiros municipais.

Na ocasião, e apesar de já adoptado desde há algum tempo, passou a existir em termos formais um novo uniforme para serviço operacional, "constituído por camisa de trabalho de cor cinzenta e calça de cotim, bota ou botim preto, cinturão de argolas, machado com pala e capacete, tendo como abafo o casaco de cabedal ou oleado, ou ainda o blusão de fazenda azul".

Justificando os mencionados acertos, inscreveu o legislador no Decreto n.º 42797, de 4 de Janeiro de 1960, que antecedeu a publicação da Portaria n.º 18031 e autorizou o Ministro do Interior a alterar as características dos uniformes, sob proposta do Conselho Nacional dos Serviços de Incêndios:

"Pelo Decreto n.º 38439, de 27 de Setembro de 1951, foram fixados os modelos de uniformes a usar pelo pessoal dos corpos de bombeiros voluntários, bem como os distintivos correspondentes aos diversos postos admissíveis nos respectivos quadros.

Reconhece-se, porém, a inconveniência do sistema de regulamentação adoptado, que não permite proceder fàcilmente aos ajustamentos que a prática vai aconselhando como indispensáveis às necessidades do serviço e, ainda, aos que o aparecimento de novos e mais adequados materiais de confecção impõe."

Novas disposições voltaram a surgir três décadas depois, por via da Portaria n.º 1166/90, de 30 de Novembro, contemplando uma perspectiva mais abrangente, lendo-se na respectiva introdução:

"O plano de uniformes dos bombeiros estabelecido no Decreto n.º 38439, de 27 de Setembro de 1951, com a redacção dada pela Portaria n.º 18031, de 31 de Outubro de 1960, para os bombeiros voluntários, está ultrapassado e desajustado da realidade actual, havendo necessidade de o reformular profundamente, adaptando-o desta forma às necessidades da situação presente.

A actualização de figurinos e modelos contribui de maneira decisiva para uma boa imagem dos bombeiros junto da população, como de igual modo permite uma melhor resposta às exigências operacionais, no âmbito da sua actuação.

Por outro lado, atendendo a que o âmbito e natureza dos serviços prestados pelos corpos dos bombeiros - sapadores, municipais não sapadores, associativos e privativos - são os mesmos, reuniu-se num só diploma o plano de uniformes, com o intuito de uniformizar as suas características."

Depois de 1960 e até 1990, os uniformes dos bombeiros voluntários nunca deixaram de sofrer, informalmente, toleradas variações, por conveniência de serviço ou mera opção de gosto, situação de certo modo favorecida pelo surgimento, no mercado, de algumas novidades de vestuário e equipamentos que foram fazendo sensação e, como tal, ganhando adeptos.

Não admira, portanto, que tivéssemos encontrado durante a nossa pesquisa diversas recomendações, registadas em boletins de sucessivos congressos da LBP, a respeito da necessidade de regulamentação apropriada.



Cabeçalho do catálogo da exposição "A Farda do Bombeiro", patente no Museu do Traje, de Julho a Novembro de 1982. A relação das peças apresentadas ao público foi distribuída como suplemento de uma publicação em formato de jornal que adoptou igual grafismo 


Valor cultural...

Com as devidas diferenças, a história narrada neste nosso despretensioso artigo foi apresentada ao público, muitíssimo bem documentada, entre Julho e Novembro de 1982, no Museu Nacional do Traje, em Lisboa.

O Ministério da Cultura e a direcção daquela prestigiada instituição museal revelaram extraordinária sensibilidade, acolhendo os principais e mais importantes testemunhos da antiga indumentária dos bombeiros do país.

A iniciativa teve também o cunho da Liga dos Bombeiros Portugueses, que na altura vivia uma das fases de maior pujança na divulgação da história, por influência do dinamismo de Victor Neto, Conservador do Museu Júlio Cardoso, a quem foi confiada a missão de interagir em nome da Confederação.
 
"A Farda do Bombeiro", assim se intitulou a exposição temporária que esteve patente no Museu Nacional do Traje, a cuja inauguração, ocorrida em 31 de Julho, presidiu o Ministro da Administração Interna, Ângelo Correia, e mereceu cobertura da única estação de televisão da época: a RTP, que enviou para o efeito, em serviço de reportagem, a jornalista Helena Balsa, conhecida pelo seu trabalho na área cultural.

"O Senhor Ministro percorreu a sala de exposições, ouvindo com muito interesse as explicações dadas pelo responsável do Museu da Liga, Sr. Vítor Neto, relativas às fardas ali expostas e outro material, de um passado cheio de glória, pois encontravam-se ali autênticas e valiosas relíquias", descreve notícia sobre o evento.

No interior do Palácio Angeja-Palmela, sede do Museu desde 1976, estiveram patentes 93 peças, tantas como as mencionadas num catálogo primorosamente elaborado.

A mostra resultou o mais completa possível, não se focando apenas em modelos de uniformes mas criando à volta destes toda uma ambiência didáctica, consubstanciada na disposição de material de combate a incêndios referente a diferentes épocas, para além de acervo de inegável valor artístico, tais como retratos pintados a óleo, capacetes, demais armamento e insígnias. 

Entre o numeroso espólio, os visitantes tiveram a rara oportunidade de apreciar pertences do notável Inspector Guilherme Gomes Fernandes (representado no grafismo da exposição) e as condecorações do Comandante António Maria da Silva, o grande actor António Silva, obtidas quando da brilhante carreira de bombeiro nos Voluntários da Ajuda, em tempo doadas à LBP pela actriz Josefina Silva, sua viúva.

"Esta exposição tem sido um sucesso, e é demonstrativa do que se pode fazer para realçar o muito que temos, e que importa conservar e divulgar", avança relato publicado na oportunidade, destacando, a páginas tantas, o envolvimento dos Batalhões de Sapadores Bombeiros de Lisboa e do Porto e de corpos de bombeiros voluntários e municipais.



Pormenor da exposição "A Farda do Bombeiro"


Bombas manuais dos séculos XVIII e XIX, na ambiência criada no Museu do Traje


Perspectiva da evolução do serviço de incêndios ao nível dos seus vários recursos


...e social da indumentária

Em modo de notas finais, é de referir que a história dos fardamentos utilizados pelos serviços de incêndios e/ou corpos de bombeiros permite-nos retirar várias conclusões.

Quando adoptada, a farda começou por ser, acima de tudo, um elemento de identificação e distinção.

A sua rudimentaridade era proporcional aos meios existentes e à técnica de combate a incêndios.

Portanto, o uniforme do bombeiro constitui um documento que deve ser estudado considerando-se várias dinâmicas.

Por exemplo, um modelo do século XIX, desprovido de qualidades como a protecção e a segurança, oferece-nos uma perspectiva parcial da evolução comportamental do homem na sua relação com o fogo.

Conforme é sabido, os incêndios nos meios urbanos assumiam enormes proporções devido à vulnerabilidade das técnicas e dos materiais de construção dos edifícios. As chamas desenvolviam-se rapidamente. Apesar de procurarem ser céleres, muitas das vezes, quando chegavam aos locais de ocorrência, os bombeiros deparavam-se somente com escombros. Portanto, não havia grande necessidade de aproximação às chamas, porque nada mais restava para salvar. Fazia-se o rescaldo e pouco mais, removendo destroços fumegantes e lançando água a esmo, através de incipientes mananciais e sistemas de bombagem.

As convencionadas classes de incêndios, A (sólidos), B (líquidos inflamáveis), C (gases inflamáveis), D (metais combustíveis) e F (óleos e gorduras de cozinha), inerentes a alguns dos mais importantes avanços científicos, estavam ainda por vir, pelo que só na segunda metade do século XX a intervenção do bombeiro começou a conhecer a adequação aos vários tipos de combustão, quer ao nível da técnica de combate e da carga dos veículos, quer ao nível do fardamento e dos equipamentos de protecção individual.

Por último, e tanto quanto nos parece nunca abordada, refira-se a importância social que a farda do bombeiro teve no passado. Na verdade, só o facto de os bombeiros disporem de um fardamento vistoso constituiu matéria de incentivo e, como tal, atraiu muitos cidadãos, designadamente das camadas jovens, ao exercício da actividade, nos regimes voluntário e/ou profissional. Convém recordar que, em tempos de acentuada estratificação social, o uso de uma farda tinha influência no pensamento de quem a envergava e também de quem se encontrava ao redor. Em razão disso, e sobretudo pelo seu carácter humanitário, todo e qualquer bombeiro gozava de elevada notoriedade, contribuindo o fardamento, invariavelmente, para a sua afirmação perante e no dizer da sociedade:

"P’ra mim tem mais valor a farda d’um bombeiro
Que a espada e bons galões, d’um granadeiro"

Em próximas edições, abordaremos a utilidade do fardamento no âmbito dos corpos de bombeiros que existiram nas antigas colónias portuguesas, bem como aspectos relacionados com a sua confecção e o seu custo.