Arvoramento de Natal - Ano após ano, as iluminações de Natal fazem parte da paisagem humanizada, aclarando com todo o simbolismo a esperança de um mundo melhor. Sendo esta a maior das aspirações da humanidade e também, por analogia, da missão dos bombeiros, não é de estranhar a presença, na foto artística e documental destacada, da autoria de Arnaldo Madureira, de um veículo de socorro a apoiar trabalhos em luminárias.



Quando o Congresso de Bombeiros "pegou fogo"

Pesquisa/Texto: Redacção F&H

Tempos houve em que os congressos dos bombeiros portugueses se revestiam de especial interesse. Intensos, com substância, assumiam o carácter de verdadeiras jornadas de exaltação da classe, a ponto de os próprios intervalos das sessões de trabalho não permitirem descanso aos participantes. Foi o que aconteceu na Covilhã, durante o III Congresso Nacional de Bombeiros, convocado para o período de 21 a 25 de Julho de 1932, onde curiosa e sucessiva deflagração de incêndios na cidade provocou a mobilização espontânea de bombeiros/congressistas, que acorreram aos locais afectados seguindo à risca o lema "Um por todos e todos por um".



"Parecia um desafio atirado à maça de Bombeiros que se juntou na Covilhã e ao mesmo tempo foi mais um espectáculo inédito, que as populações presenciaram.

Estávamos em qualquer parte descansando um pouco da labuta congressional. A sereia do quartel feria os ares. E quem segurava os nossos Bombeiros? Ninguém. Não obstante a prègação que os mais sensatos faziam 'que os camaradas da Covilhã chegavam muito bem para qualquer sinistro, que não deviam imiscuir-se naqueles serviços, que até podíamos ofender involuntariamente, que se lá não estivessemos, os nossos camaradas resolviam o assunto com a sua costumada competência etc. etc.', não havia maneira de os convencer. Na verdade, um Bombeiro não pode ouvir um alarme e ficar insensível e imóvel. Tem que marchar. Eu mesmo que estou falando, também o não posso fazer. Não está na nossa mão."

O interessante testemunho que aqui transcrevemos foi registado para a posteridade pelo Comandante Álvaro Valente, dos Bombeiros Voluntários do Montijo, figura icónica dos bombeiros em Portugal.

Os incêndios declararam-se entre as 21 e as 23 horas dos dias 22, 24 e 25, todos eles em habitações, dois dos quais ocasionados por descuido.

O último parece ter sido aquele que tomou maiores proporções e ocorreu depois do banquete de confraternização do Congresso. A sua resolução exigiu o recurso a "uma coluna dupla com 200 metros de mangueira e 2 agulhêtas".

Entre as horas em que foram dados os alarmes e as chegadas aos sinistros, os socorros agiram com manifesta celeridade, entre 2 a 10 minutos.

O número de bombeiros presentes foi elevado. "Todo", dá conta a fonte consultada, tendo por base a informação contida nas partes de serviço. "Tanto que nem se poude tomar nota, pela mistura que se fez com os nossos camaradas de 'tout le monde'", comenta Álvaro Valente.

A própria referência aos bombeiros que contraíram ferimentos durante os trabalhos de extinção dá bem ideia da variedade e da dispersão das proveniências dos envolvidos: João Garcia, dos Bombeiros Voluntários da Covilhã; Alexandre José Pavia, dos Bombeiros Voluntários de Montemor-o-Novo; João Crisóstomo de Sá, dos Bombeiros Voluntários "Progresso Barcarenense" - Barcarena; Alberto Santos, Barreiro, dos Bombeiros da Companhia União Fabril - Barreiro. E alguns pertencentes aos Bombeiros Voluntários do Estoril, cujos nomes não constam na relação a que tivemos acesso.

Tem toda a oportunidade, portanto e ainda, quando o Comandante Álvaro Valente declara no seu testemunho:

"Como se vê pelo exposto, durante o nosso Congresso houve um verdadeiro concurso de provas práticas, nem isto faltando para que ele tivesse sido completo."



Bombeiros Voluntários da Covilhã em continência, saudando as entidades presentes no simulacro de incêndio realizado por ocasião III Congresso Nacional de Bombeiros


Mais uma prova de prontidão

As fotos em presença, pertencentes a António Neves Dias, captadas e reveladas por seu pai, retratam dois aspectos do simulacro de incêndio levado a efeito pelos Bombeiros Voluntários da Covilhã (BVC), no dia 24 de Julho, na Praça do Município, após o desfile e a parada de todas as associações e corpos de bombeiros que se fizeram representar na reunião magna. 

Na ocasião foi simulada uma situação de incêndio num edifício de três andares com águas furtadas, que concentrava comércio, serviços e habitação. O fogo havia irrompido no segundo andar, que tomara a escada de acesso e encurralado várias pessoas. 

Os BVC compareceram na sua máxima força (dois pronto-socorros e um transporte de pessoal), executando o tema com distinção em todas as suas fases, incluindo a "demonstração de águas". 

Segundo considerações então produzidas, "o exercício no seu conjunto foi ótimo, prático e algo proveitoso".

Decorrido "sob um sol escaldante", relata também Álvaro Valente, o evento mereceu a assistência de muito público, entre o qual uma delegação de bombeiros franceses, expressamente convidada para assistir ao III Congresso Nacional de Bombeiros.