"Velhos são os trapos"Eis um dos provérbios portugueses que nos parece adequado para intitular a nossa referência ao que aconteceu no quartel-sede dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede (BVC), quando a depressão Kristin passou por Portugal continental. Pois bem, a "Maria Regina", nome de baptismo atribuído à viatura aqui retratada, serviu de salvação ao Corpo de Bombeiros, garantindo parte da integridade das instalações e sobretudo de quem nelas se encontrava de serviço na noite da tempestade.



História, valores e ética em forma de livro

"Ao contrário da esmagadora maioria dos livros de história institucional referentes a Bombeiros, nos quais os factos descritos sobre os processos fundacionais decorrem em plena Monarquia, na I República ou durante o período do Estado Novo, o que aqui destacamos tem a particularidade de se reportar ao pós-25 de Abril."



Em 2017, no âmbito do exercício de funções delegadas pelo então Presidente do Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), Comandante Jaime Marta Soares, dei a minha modesta colaboração a uma dupla de investigadores que tinha sido incumbida de recolher elementos históricos tendentes à elaboração do livro comemorativo dos 45 anos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Pataias (AHBVP) .

A recente intempérie que assolou o distrito de Leiria e outras zonas do Centro do país, entre elas a vila de Pataias, fez-me recordar mais essa experiência passada ao serviço da desafiante missão de preservar e divulgar a história dos bombeiros de Portugal.
 
Tendo a LBP um precioso arquivo e conhecendo eu o mesmo, não foi tarefa difícil localizar alguma documentação existente e seleccionar aquela que me parecia mais relevante para o fim em vista.
 
Retenho o excelente clima em que decorreu a reunião exploratória com Ana Ferraz Pereira, jornalista, e Tiago Inácio, historiador, na sede da Confederação, pelo empenho e saber de ambos, bem como pela simplicidade e cordialidade demonstradas.

Coroando de êxito o trabalho dos autores, o livro saiu do prelo em 2023, através da editora Hora de Ler, sendo lançado a 18 de Junho, com apresentação de José Jacinto Fernandes, co-fundador, ex-Presidente e ex-Comandante da AHBVP.

Devidamente estruturado, trata-se de uma monografia que atrai o leitor. A construção da narrativa e a composição gráfica formam uma união perfeita.

O testemunho ali compreendido vai desde 1975, ano das primeiras tentativas de fundação da instituição, até 2023, se bem que 1978 represente, formalmente, o ponto de partida, por marcar o momento da escritura de constituição da Associação, ao que se sucederam as naturais dificuldades inerentes a qualquer projecto em fase inicial.

Ao contrário da esmagadora maioria dos livros de história institucional referentes a Bombeiros, nos quais os factos descritos sobre os processos fundacionais decorrem em plena Monarquia, na I República ou durante o período do Estado Novo, o que aqui destacamos tem a particularidade de se reportar ao pós-25 de Abril. 

Efectivamente, a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Pataias configura um exemplo do associativismo influenciado pela explosão de participação popular, ocorrida durante o processo de democratização que mudou a vida nacional. 
 
Ana Ferraz Pereira e Tiago Inácio tiveram a preocupação de coligir o máximo de informação, situando-nos no tempo e no espaço com todo o rigor, e de valorizar aspectos que resultaram numa história sentida e vivida.

Duas antigas escolas primárias da localidade têm lugar preponderante na trajectória da AHBVP: uma por ter acolhido a realização das reuniões informais onde germinou a ideia da organização dos Bombeiros Voluntários; outra porque parte das suas instalações albergou o primitivo quartel. Facto curioso e original, que nos desafia a estabelecer paralelismo com um dos juízos produzidos pelo maior doutrinador dos bombeiros portugueses, o Comandante Álvaro Valente, que considerava a Instituição-Bombeiros autêntica escola de virtudes. 

Logicamente, não é função deste editorial descrever a história dos bombeiros pataienses, pelo que, como alternativa e procurando ser justo, se me oferece recomendar a consulta do livro em apreço, que revela, eterniza e homenageia uma trajectória de perseverança e sucesso.

Suponho que a obra ainda está ao alcance de ser adquirida por apreciadores do género, prestando-se a satisfazer o gosto pela leitura e a apoiar a respectiva Associação/Corpo de Bombeiros.

Referi atrás que os autores tiveram a preocupação de apresentar um trabalho completo, de tal maneira que não lhes faltou espaço para agradecer a todos aqueles que de alguma forma o tornaram possível.

À Ana Ferraz Pereira e ao Tiago Inácio, que entenderam mencionar o meu nome e remeter um exemplar, renovo, nesta oportunidade, a expressão do quanto estou grato pela gentileza.

Em conclusão, ambos os intervenientes fizeram e tiveram memória. 

Quando o esquecimento parece ser a norma da maioria, ainda há quem consiga surpreender demonstrando qualidade moral e ética.


Luís Miguel Baptista
Jornalista
lmb.fogo.historia@gmail.com



Foto: Bombeiros Voluntários de Pataias
Acto histórico. Desceramento da placa de inauguração do actual quartel-sede, em 1 de Abril de 2006, destacando-se entre os presentes o então Secretário de Estado da Administração Interna, Ascenso Simões