"Velhos são os trapos"Eis um dos provérbios portugueses que nos parece adequado para intitular a nossa referência ao que aconteceu no quartel-sede dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede (BVC), quando a depressão Kristin passou por Portugal continental. Pois bem, a "Maria Regina", nome de baptismo atribuído à viatura aqui retratada, serviu de salvação ao Corpo de Bombeiros, garantindo parte da integridade das instalações e sobretudo de quem nelas se encontrava de serviço na noite da tempestade.



O fogo da Mundet em 1965

Pesquisa/Texto: Redacção F&H

Em 24 de Junho de 1965, chegavam ao conhecimento de alguns portugueses - porque poucos tinham televisores - impressionantes imagens de um fogo de arder. No seu noticiário nacional, a RTP dava conta da destruição parcial, na véspera, da fábrica de cortiça Mundet, junto à Baía do Seixal.



Ao tempo, não havia Corpo de Bombeiros no Seixal, mas a unidade fabril dispunha de Bombeiros Privativos desde 1942. Foram, por isso, os primeiros a responder ao alarme de incêndio.

A peça exibida pela televisão pública é bem explícta quanto à extensão do sinistro e dos meios humanos e materiais envolvidos na sua resolução (em distintos planos de imagem, entre os combatentes, identificam-se o grande Comandante José Braz e o não menos carismático Chefe José Almeida Gonçalves, mais tarde 2.º Comandante, ambos dos Bombeiros Voluntários de Almada).

Sendo a cortiça um material inflamável, a carga térmica resultou elevada.

"Muito fogo, muita água", foi o procedimento técnico seguido.

O estuário do rio Tejo assumiu a condição de verdadeiro aliado dos bombeiros, pois tratou-se de um manancial de excelência alimentando as mangueiras que levaram água a 15 agulhetas, tantas quantas as que estiveram a trabalho.

Numa grande azáfama, cada corpo de bombeiros mobilizado (e foram vários, incluindo o da Siderurgia Nacional) procurou fazer o seu melhor, batendo-se com a limitação operacional que caracterizava o socorro naquela época, patenteada nas características de alguns veículos e, sobretudo, na exposição individual a enorme risco.

Ao todo intervieram 120 bombeiros, alguns dos quais não escaparam a ferimentos e intoxicações, sucedendo-se o mesmo com pessoal da fábrica que auxiliou no combate às chamas.

Na origem do incêndio parece ter estado uma explosão na sala de parafinação de rolhas, que ficou totalmente destruída, assim como as dependências contíguas. Mais tarde, acabou tudo demolido.

O rescaldo arrastou-se durante sucessivas horas.

Parte significativa da produção afectada destinava-se à exportação.

Os prejuízos atingiram cerca de sete mil contos, cobertos pelo seguro.

A Mundet, com existência desde 1905, era na altura uma das maiores empresas do país no sector corticeiro. Tinha cerca de dois mil trabalhadores.

Encerrada em 1988, o seu edifício tornou-se património municipal para fins recreativos e culturais a partir de 1996.

Os hectares de terreno que outrora compreenderam a área da reputada indústria, hoje, satisfazem a procura gastronómica e turística na Margem Sul, por via de diferentes tipos de oferta.

Reabilitada no espaço e preservada na memória, a antiga Mundet acolhe desde 13 de Fevereiro de 2026 o empreendimento Upon Harbor Seixal Bay, um hotel de quatro estrelas, com 102 apartamentos e 11 tipologias.