"Velhos são os trapos"Eis um dos provérbios portugueses que nos parece adequado para intitular a nossa referência ao que aconteceu no quartel-sede dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede (BVC), quando a depressão Kristin passou por Portugal continental. Pois bem, a "Maria Regina", nome de baptismo atribuído à viatura aqui retratada, serviu de salvação ao Corpo de Bombeiros, garantindo parte da integridade das instalações e sobretudo de quem nelas se encontrava de serviço na noite da tempestade.



Das arenas para a corrida aos incêndios

Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista
Fotos: Bombeiros Voluntários de Viseu e F&H

Manoel Casimiro d’Almeida (1854-1925), ilustre cavaleiro tauromáquico, fundou em 25 de Março de 1886 a Associação Viseense de Bombeiros Voluntários, actual Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Viseu.
Avô da actriz Mirita Casimiro, é mais um exemplo de que todos nós temos um bombeiro na família.




Personalidade interventiva no meio social de Viseu, cidade onde fixou residência e exerceu a actividade de industrial, assumiu encargos em várias obras de solidariedade.

Já ligado ao toureio, empenhou-se no objectivo de fundar os Bombeiros Voluntários, não obstante a existência de uma companhia contra incêndios, dependente da Câmara Municipal.

O envolvimento foi tal que uma arrecadação de sua propriedade serviu para instalação do primeiro quartel.

"(...) cêdo se distinguiu pela energia que pôz ao serviço da humanitária corporação de bombeiros locais, que o nomeou para seu chefe" - recordou o Diário de Lisboa quando da notícia do seu falecimento.

A escolha de Manoel Casimiro d’Almeida para comandar o Corpo de Bombeiros aconteceu no dia 18 de Janeiro de 1886, antes de ser oficializada a criação da Associação.

Reza a história que foi eleito por aclamação. E, "que soube, como poucos, honrar um cargo que lhe deu direito à maior estima e gratidão da cidade e do concelho".

Comandante entre 1886 e 1919, granjeou a fama de "verdadeira alma" da instituição.

Privou com o Mestre Guilherme Gomes Fernandes, Inspector de Incêndios do Porto, de quem foi amigo íntimo e recebeu instruções, deslocando-se à Invicta montado no seu cavalo, prova evidente da resistência, dinamismo e responsabilidade que sempre o marcaram. Chegou a permanecer no Porto durante longos meses, a expensas próprias, para poder aprender tudo sobre a "profissão das bombas" e depois ensinar aos bombeiros viseenses.

Ao longo da carreira, em virtude de arriscadas intervenções durante o combate a incêndios, obteve vários louvores e condecorações.

Ainda pelos seus méritos, chegou a ser nomeado Inspector dos Serviços de Incêndios.



Manoel Casimiro d'Almeida com a indumentária de cavaleiro tauromáquico, inspirada nas vestes da fidalguia, também conhecida por traje "à Frederica" 


Todos diferentes, mas todos iguais

Seu neto homónimo e também afilhado, Manuel Casimiro de Almeida, assegurou a continuidade dos costumes familiares. Orgulhoso do parentesco que o ligava ao "Mestre", assim como do facto de ser filho e irmão de bombeiros e cavaleiros tauromáquicos, ingressou no voluntariado e actuou nas arenas do país.

Promissor desde muito jovem, aos 22 anos, ascendeu à categoria de Chefe de Secção, por mérito próprio, em resultado da prestação de provas e de concursos de promoção.

Já retirado de bombeiro, exerceu as funções de Vereador da Câmara Municipal de Lisboa e de Procurador da Câmara Corporativa, entre outros desempenhos de relevo. Pertencem-lhe as palavras abaixo:

"Seguindo o exemplo de meu Avô, logo imitado por meu Pai, fui autorizado a receber o capacete apenas com 16 anos, tornando-me bombeiro efectivo desde 1926. Mas… bombeiro efectivo, eu posso concluir que o seria já… 39 anos atraz. E assim, com tal 'virus' na massa do sangue, escalei paredes, molhei e chamusquei o corpo, abrazei o corpo e a alma, em vários incêndios da minha Terra, na bendita missão que é apanágio de todos os Bombeiros: Amar e servir o próximo, sem distinção, como Deus determinou."

Também Mirita Casimiro, irmã de Manuel Casimiro de Almeida, respondeu ao chamamento da Associação de Bombeiros fundada pelo avô. Desenvolvendo esta, por tradição, importante actividade cultural através de um grupo cénico amador, a popular actriz apoiou-o algumas vezes quando da representação de peças no Teatro Viriato, uma das fontes de receita destinadas ao financiamento da missão de socorro. 

Os Casimiros não foram apenas amantes das artes, conforme se conclui pela amostragem da vivência de cada um deles. Todos diferentes, mas todos iguais, assumiram compromisso com o interesse colectivo, na perspectiva intimista da solidariedade.

Coube a Manoel Casimiro d'Almeida, mais conhecido como figura do toureio equestre do que como bombeiro, o feito histórico de primeiro cavaleiro a tomar a alternativa na Praça de Toiros do Campo Pequeno, em 21 de Agosto de 1892. Através deste acto, passou à situação de profissional, ao que consta após ter sido incentivado pelo seu amigo Carlos Relvas, cavaleiro e toureiro amador, de cuja capacidade de inventor, benéfica para os bombeiros, já aqui tratámos. 

Uma placa de mármore com efígie de bronze, exposta na entrada principal do Campo Pequeno, descerrada a 26 de Janeiro de 1934, por ocasião de uma homenagem ao insigne artista, cerca de dez anos depois da sua morte, evoca o mencionado acto oficial, o que não passou despercebido no seio da Instituição-Bombeiros, sendo então motivo de notícia nas páginas do Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Com enorme coragem, Manoel Casimiro d'Almeida viveu realidades paralelas. Enfrentou, porém, numa só passagem, a arena da vida, somando "sortes", à boa maneira tauromáquica.

Outra destacada figura com acção dividida entre o meio taurino e o associativismo em bombeiros foi o grande jornalista Leopoldo Nunes, que se destacou enquanto dirigente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, designadamente como Presidente da Direcção. Dele falaremos em breve.


Placa de homenagem presente na entrada principal da Praça de Toiros do Campo Pequeno, em Lisboa


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