"Velhos são os trapos"Eis um dos provérbios portugueses que nos parece adequado para intitular a nossa referência ao que aconteceu no quartel-sede dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede (BVC), quando a depressão Kristin passou por Portugal continental. Pois bem, a "Maria Regina", nome de baptismo atribuído à viatura aqui retratada, serviu de salvação ao Corpo de Bombeiros, garantindo parte da integridade das instalações e sobretudo de quem nelas se encontrava de serviço na noite da tempestade.



Memórias e vestígios de um quartel da "aldeia"

Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista
Fotos: F&H, Fotold e Arquivo Nacional da Torre do Tombo

O local privilegiado desta espécie de roteiro acolheu o antigo quartel-sede da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique - Cruz Branca (AHBVCO), facto praticamente despercebido, apesar de a construção que serviu de aquartelamento ainda resistir. Descaracterizada e devoluta, justifica, todavia, pela função assumida, que nos detenhamos na preservação teórica do seu passado, transpondo, tanto quanto possível, para a narrativa, os detalhes necessários em ordem a despertar, no imaginário do leitor, os movimentos e os sons que animaram a artéria e fizeram dela praça forte da missão de socorro dos bombeiros portugueses.



O espaço público constitui um inesgotável elemento de estudo e alia, em cada um dos seus aspectos, sejam eles de carácter geral ou de pormenor, história e memória. Foi esta uma das razões que nos motivou a visitar a "aldeia", conforme se referia Fernando Pessoa ao coração de Lisboa, incluindo o bairro onde residiu até aos últimos dias: Campo de Ourique. 

Num dos quarteirões da sua malha ortogonal, fica a Rua Francisco Metrass, pintor português da época romântica que viveu entre 1825 e 1861.

É nela que está situado o edifício em presença, de linhas simples e vulgares. Ostentando na sua fase primitiva os números de porta 32 e 32A, actuais 48 e 48A, parecia estar fadado a albergar homens e máquinas, sempre num contexto de franca actividade.

Antes de ser quartel de bombeiros, funcionou como oficina da firma de veículos automóveis J. J. Gonçalves, Sucessores, agente geral da marca inglesa Austin.

Foi em 1941, ano da celebração do contrato de arrendamento, que a AHBVCO ali se fixou, por mérito da gestão de uma Comissão Administrativa, após vários anos instalada na Rua Ferreira Borges e na Rua Correia Teles.

Fundada a 13 de Novembro de 1916, sob o impulso de elementos dissidentes dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, a instituição atingiu assim uma nova dimensão. Centralizou, num só espaço, a sede, o quartel e o posto de socorros, pois até então tais serviços se haviam encontrado dispersos pelo famoso bairro lisboeta.

A adaptação da parte interior do imóvel tornou-se forçosa. Com uma área total de quatrocentos metros quadrados, o aproveitamento da antiga garagem de reparação auto resultou em pleno, proporcionando as condições físicas indispensáveis ao funcionamento interno da Associação e do respectivo Corpo de Bombeiros.

Por força da sua amplitude, o parqueamento do material de incêndio e de saúde constituiu uma das vantagens mais impactantes. O contraste era grande relativamente ao anterior quartel da Rua Correia Teles, que só permitia o estacionamento de duas viaturas, uma atrás da outra.

A par disso ficou dotado de várias dependências, distribuídas em função da especificidade de cada sector, privilegiando uma lógica de melhor organização e maior dignidade no desempenho de tarefas.

As alterações efectuadas na estrutura do edifício, que abrangeram trabalhos de ampliação vertical, deram ainda origem a um salão, destinado a actividades sociais.

A mudança para o quartel ocorreu no ano das bodas de prata dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, uma feliz coincidência entre dois marcos importantes. Em finais de 1941, num ambiente de novidade, decorreram ali as brilhantes comemorações da efeméride, o primeiro de muitos e memoráveis eventos que o espaço viria a testemunhar.

Assim teve início o "Quartel Carlos Bessa", designação atribuída em honra do primeiro comandante da história.



O edifício da Rua Francisco Metrass quando oficina da marca automóvel Austin


A área interior de reparação mecânica, mais tarde convertida em parque de viaturas 


A localização estratégica destas instalações e das precedentes, na centralidade de Campo de Ourique, em zonas mistas marcadas pela combinação de residências, comércio e serviços, potenciou o enraizamento da Instituição-Bombeiros na vida comunitária, tornando-a presença permanente e amiga.

Diríamos, por analogia, e a avaliar pela familiaridade do edifício da Rua Francisco Metrass com a reparação de motores, que as relações de vizinhança se estabeleceram sempre em rotação ideal.

Atenta ao movimento do Corpo de Bombeiros, nada passava despercebido à população. Quando em missão de urgência, a aparatosa saída de viaturas encantava os mais novos e sobressaltava os mais velhos. Já os dias reservados à realização de exercícios ou de paradas e desfiles serviam de entretenimento a todos, prendendo, consoante os casos, olhares de espanto perante a destreza dos voluntários na execução de manobras e olhares de deslumbramento pela elegância das fardas.

Acompanhar de perto a vida associativa era tão normal para os residentes do bairro como recorrer ao apoio de áreas complementares, quer perante a necessidade de se fazer uma ligação telefónica, quer quando um acidente doméstico, de trabalho ou na via pública exigia cuidados especiais. O quartel tinha telefone público, da então Anglo Portuguese Telephone, e albergava o Posto de Socorros Cruz Branca, estrutura do Serviço de Saúde com longa tradição, tão prestigiada e prestimosa quanto o Serviço de Incêndios, que garantia uma resposta de proximidade.



"A localização estratégica destas instalações e das precedentes, na centralidade de Campo de Ourique, em zonas mistas marcadas pela combinação de residências, comércio e serviços, potenciou o enraizamento da Instituição-Bombeiros na vida comunitária, tornando-a presença permanente e amiga."



Licença: CC BY-SA 4.0

No período da II Guerra Mundial, exercícios de defesa passiva realizados defronte do quartel

Licença: CC BY-SA 4.0

O parque de viaturas por ocasião do baptismo de uma nova auto-maca



"Por força da sua amplitude, o parqueamento do material de incêndio e de saúde constituiu uma das vantagens mais impactantes, contrastando com o do anterior quartel da Rua Correia Teles, que só permitia o estacionamento de duas viaturas, uma atrás da outra."



O imóvel tornou-se património da Câmara Municipal de Lisboa, em 1970. A progressão dos anos e a consequente evolução da actividade e dos equipamentos dos bombeiros deram-no, a páginas tantas, como limitado para diversos fins, nomeadamente ao nível da instrução dos voluntários, passando esta a ser dada na sede da 2.ª Companhia do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa, no Alto de Santo Amaro.

A própria construção, pela sua antiguidade, começou a dar sinais de sério desgaste. Os inevitáveis constrangimentos daí decorrentes determinaram a procura de soluções alternativas, caso da edificação de um quartel nas traseiras da Igreja de Santo Condestável, o que não obteve êxito, apesar de considerada num projecto urbanístico de valorização da zona em questão, aprovado pela edilidade no alvor de 1975.

Contemporâneo de grandes feitos, entre 1981 e 1982, o velho quartel serviu de pano de fundo a uma original escola de recrutas feminina, da qual resultaram as primeiras cinco mulheres bombeiras do país: Teresa Dantas, Isabel Andrade, Emília Simões, Anabela Pinheiro e Ana Paula.

Pouco tempo depois, porque a situação já se tornava insustentável, a ponto de chover nas camaratas, foi possível transferi-lo para a localização actual, na Rua José Gomes Ferreira, ocupando edificado e terrenos propriedade da EPAL, entretanto cedidos a título precário.



Aspecto actual do imóvel, vendo-se ainda, entre os portões, o painel do sistema de chamada de socorros...  


...e os vestígios do elemento luminoso identificativo do Serviço de Saúde da Cruz Branca


O edifício da Rua Francisco Metrass permaneceu, porém, na posse da AHBVCO, enquanto arrendatária, até 2006, altura da revogação do respectivo contrato. Antes disso, teve utilização para fins logísticos, mantendo-se ainda, durante certo período, como morada da sede social e dos serviços de secretaria.

Actualmente emparedado, tem os dias contados. Vai ser demolido. Para a sua área, avizinha-se uma nova construção de referência. Segundo apurado, trata-se de "um edifício com uma linguagem sóbria e contemporânea que procura tirar o máximo partido da iluminação natural e do espaço verde envolvente". Dividido em sete fracções, terá "espaço comercial e acesso a estacionamento subterrâneo no piso térreo e logradouro com piscina no piso 1".

Variável no tempo, um só estado de ruína produziu efeitos de acentuada melhoria. Antes, na dinâmica dos Bombeiros. Agora, na ambiência de Campo de Ourique.

Ocorrem-nos, por isso, palavras de Agustina Bessa Luís, que se ajustam à circunstância:

"Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa."


O futuro edifício da Rua Francisco Metrass, 48, em Campo de Ourique, na área ocupada pelo antigo quartel dos Bombeiros Voluntários