Fotos: Arquivo F&H e Arquivo Nacional da Torre do Tombo
"Quem ama não fica de braços cruzados, quem ama serve, quem ama corre para servir, corre empenhado no serviço aos outros."
A frase pertence ao Papa Francisco e foi dita no encontro de voluntários realizado por ocasião da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.
Entre a ocasião em que o Sumo Pontífice proferiu tais palavras e a presença terrena do nosso homenageado, vai um longo espaço temporal. Ainda assim, a trajectória de vida do segundo parece representar uma antevisão perfeita da essência discursiva do antigo líder da Igreja Católica. Referimo-nos ao Padre António Luís de Sousa (1879-1954), um bombeiro de verdade, a primeira figura eclesiástica que em Portugal viu reconhecida oficialmente a sua função na capelania dum corpo de bombeiros.No tempo de António Luís de Sousa, as instituições constituíam sistemas fechados e, por conseguinte, reservados em matéria de comunicação institucional. Se fosse como hoje, decerto que o sacerdote teria tido uma carreira mais auspiciosa, desde logo em termos de maior projecção pública. Aliás, o mesmo verificar-se-ia com outras autoridades religiosas ligadas à Instituição-Bombeiros, que exerceram cargos de responsabilidade nos órgãos sociais de associações e nos quadros de comando de corpos de bombeiros. Mas, não. Pese embora a realidade circunstanciada, desprovidas de proeminência, agiram sempre de modo simples e discreto, algumas das quais talvez em excesso, a ponto de se esfumarem linearmente da memória, o que difere da presunção de muito boa gente da era actual, que parece mais preocupada em ser vista e notada.
O Padre Sousa, que gozava de bastante popularidade na cidade de Lisboa, sobretudo no bairro da Graça onde residia, espalhou o bem.
Ao que consta, a solidariedade não foi apenas pilar fundamental da sua vida eclesiástica. Politicamente, revia-se nos ideais republicanos, tendo apoiado os revoltosos do 5 de Outubro de 1910.
Sempre dedicado à humanidade, foi um "fervoroso apaixonado pelo serviço de bombeiros", o que lhe valeu ver o seu nome inscrito entre aqueles que, a dado passo, iniciaram a luta pela defesa do voluntariado.
Na verdade, a missão que abraçou encerra um conjunto de particularidades que importa valorizar, cujo início antecede a ascensão ao cargo de Capelão.
Em 1 de Janeiro de 1912, alistou-se nos Bombeiros Voluntários de Lisboa (BVL), na qualidade de Maquinista, operando com a bomba a vapor e confirmando ser, tal como visto pelos seus semelhantes, "um homem desempoeirado".
Manobrador eficiente, cedo se destacou no desempenho de uma função que era essencial na cadeia de combate ao fogo. Por isso, passou a instrutor dos maquinistas, situação que se manteve entre 1914 e 1916.
Um artigo sobre "O Padre Sousa - O Padre Bombeiro", da autoria de Ribeiro Nunes, publicado em Janeiro de 1971 no antigo mensário regionalista Fogo & Paz, editado pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Trafaria, dá a conhecer que a respectiva folha de serviços "é das mais relevantes". E revela, a propósito, que "desde o seu alistamento até à sua morte, não faltou aos maiores incêndios".
Arriscou a vida por diversas vezes, sendo justo referir a coragem e abnegação demonstradas no salvamento de operários, vítimas da explosão que atingiu a Fábrica de Gás da Boavista, em 10 de Outubro de 1914; no levantamento de mortos e feridos da revolução de 14 de Maio de 1915, bem como na extinção de incêndios eclodidos na mesma oportunidade, fazendo-o debaixo de fogo; e no ataque ao incêndio da Escola Naval, ocorrido a 18 de Abril de 1916. Neste último, mereceu ser louvado pelo Ministério da Marinha, por manifesta competência técnica. Sabe-se ainda que teve acção de relevo nos incêndios das Encomendas Postais e do Limoeiro, deflagrados, respectivamente, nas datas de 2 e 3 de Maio de 1917.
A frase pertence ao Papa Francisco e foi dita no encontro de voluntários realizado por ocasião da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.
Entre a ocasião em que o Sumo Pontífice proferiu tais palavras e a presença terrena do nosso homenageado, vai um longo espaço temporal. Ainda assim, a trajectória de vida do segundo parece representar uma antevisão perfeita da essência discursiva do antigo líder da Igreja Católica. Referimo-nos ao Padre António Luís de Sousa (1879-1954), um bombeiro de verdade, a primeira figura eclesiástica que em Portugal viu reconhecida oficialmente a sua função na capelania dum corpo de bombeiros.No tempo de António Luís de Sousa, as instituições constituíam sistemas fechados e, por conseguinte, reservados em matéria de comunicação institucional. Se fosse como hoje, decerto que o sacerdote teria tido uma carreira mais auspiciosa, desde logo em termos de maior projecção pública. Aliás, o mesmo verificar-se-ia com outras autoridades religiosas ligadas à Instituição-Bombeiros, que exerceram cargos de responsabilidade nos órgãos sociais de associações e nos quadros de comando de corpos de bombeiros. Mas, não. Pese embora a realidade circunstanciada, desprovidas de proeminência, agiram sempre de modo simples e discreto, algumas das quais talvez em excesso, a ponto de se esfumarem linearmente da memória, o que difere da presunção de muito boa gente da era actual, que parece mais preocupada em ser vista e notada.
O Padre Sousa, que gozava de bastante popularidade na cidade de Lisboa, sobretudo no bairro da Graça onde residia, espalhou o bem.
Ao que consta, a solidariedade não foi apenas pilar fundamental da sua vida eclesiástica. Politicamente, revia-se nos ideais republicanos, tendo apoiado os revoltosos do 5 de Outubro de 1910.
Sempre dedicado à humanidade, foi um "fervoroso apaixonado pelo serviço de bombeiros", o que lhe valeu ver o seu nome inscrito entre aqueles que, a dado passo, iniciaram a luta pela defesa do voluntariado.
Na verdade, a missão que abraçou encerra um conjunto de particularidades que importa valorizar, cujo início antecede a ascensão ao cargo de Capelão.
Em 1 de Janeiro de 1912, alistou-se nos Bombeiros Voluntários de Lisboa (BVL), na qualidade de Maquinista, operando com a bomba a vapor e confirmando ser, tal como visto pelos seus semelhantes, "um homem desempoeirado".
Manobrador eficiente, cedo se destacou no desempenho de uma função que era essencial na cadeia de combate ao fogo. Por isso, passou a instrutor dos maquinistas, situação que se manteve entre 1914 e 1916.
Um artigo sobre "O Padre Sousa - O Padre Bombeiro", da autoria de Ribeiro Nunes, publicado em Janeiro de 1971 no antigo mensário regionalista Fogo & Paz, editado pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Trafaria, dá a conhecer que a respectiva folha de serviços "é das mais relevantes". E revela, a propósito, que "desde o seu alistamento até à sua morte, não faltou aos maiores incêndios".
Arriscou a vida por diversas vezes, sendo justo referir a coragem e abnegação demonstradas no salvamento de operários, vítimas da explosão que atingiu a Fábrica de Gás da Boavista, em 10 de Outubro de 1914; no levantamento de mortos e feridos da revolução de 14 de Maio de 1915, bem como na extinção de incêndios eclodidos na mesma oportunidade, fazendo-o debaixo de fogo; e no ataque ao incêndio da Escola Naval, ocorrido a 18 de Abril de 1916. Neste último, mereceu ser louvado pelo Ministério da Marinha, por manifesta competência técnica. Sabe-se ainda que teve acção de relevo nos incêndios das Encomendas Postais e do Limoeiro, deflagrados, respectivamente, nas datas de 2 e 3 de Maio de 1917.
Vida preenchida ao serviço dos Bombeiros
"Destemido e arrojado em todas as emergências de perigo, lá estava sempre presente, quer a dirigir o combate aos incêndios, quer na condução de feridos para os hospitais ou postos da Cruz Vermelha, com um absoluto despreso pela vida." Assim descrito por quem o conheceu, António Luís de Sousa era também presença assídua nos grandes eventos de âmbito nacional ligados à dignificação e valorização da classe. Ou melhor, fez parte dos corpos gerentes da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), como membro suplente, primeiro, do então Conselho Administrativo e Técnico e, depois, do Conselho Fiscal. Na mesma fase, conservando ligação aos BVL, chegou a exercer as funções de Presidente da Direcção.
Socialmente activo, identificamo-lo nos dois documentos fotográficos abaixo publicados, recolhidos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e pertencentes ao fundo da Empresa Pública Jornal O Século, que ilustram dois momentos importantes e raros da história dos bombeiros portugueses e da relação entre estes e o poder político durante o período do Estado Novo. No dia 4 de Maio de 1941, por ocasião da homenagem prestada pela Federação das Sociedades de Educação e Recreio ao Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, o Padre António Luís de Sousa integrou a delegação da LBP que se ocupou de inteirar o chefe do Governo de algumas das suas principais aspirações. Em 27 de Setembro de 1945, foi um dos dirigentes recebidos pelo Ministro do Interior, Tenente-Coronel Jorge Botelho Moniz, para entrega formal do relatório de conclusões do Congresso Extraordinário reunido na cidade de Coimbra, de 24 a 26 de Agosto daquele ano, num contexto particularmente sensível de oposição às intenções governativas sobre a regulamentação do sector. Apresentado sob o signo do interesse da nação, o referido documento influiu, por exemplo, na criação do Conselho Nacional dos Serviços de Incêndios, organismo de superintendência da actividade dos corpos de bombeiros.
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À esquerda, ouvindo o Presidente do Conselho Administrativo e Técnico da Liga dos Bombeiros Portugueses, João Manuel Pires, na alocução dirigida ao Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar
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À direita, atrás do Comandante Luís António da Silva, quando este expunha ao Ministro do Interior, Tenente-Coronel Jorge Botelho Moniz, as conclusões do Congresso Extraordinário de Bombeiros
Honra ao mérito civil e sacerdotal
Elevado à condição de Capelão dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, segundo autorização do Patriarcado de Lisboa, recebeu as honras de Ajudante de Comando, nomeação sancionada pelo Inspector de Incêndios da Zona Sul, Major Luís Ribeiro Viana, a 15 de Janeiro de 1951, data da sua publicação na Ordem de Serviço n.º 1 da Inspecção. Supomos que consistiu numa decisão de carácter excepcional, em virtude do mérito do Padre Sousa, pois que o Regulamento Geral dos Corpos de Bombeiros vigente, de 1946, só previa equiparação a Ajudante no caso da figura do Médico Chefe do Serviço de Saúde.
Refira-se que antes já existiam capelães em alguns corpos de bombeiros, com especial incidência no Norte do país, apesar de os mesmos não se encontrarem previstos formalmente. Correspondia, portanto, a matéria da exclusiva competência de cada entidade detentora.
António Luís de Sousa recebeu 14 louvores e quase tantas outras condecorações, por assinaláveis actos praticados.
Em circunstâncias solenes, era comum colocar as insígnias no próprio hábito, sendo de salientar, entre as demais que lhe foram concedidas: as medalhas de prata de D. Maria II (mérito, filantropia e generosidade), a medalha espanhola de Isabel a Católica, medalha de prata da Liga Francesa, Social e Filantrópica (mérito cívico) e a medalha de prata do Instituto de Socorros a Náufragos (filantropia e caridade).
Faleceu no dia 4 de Dezembro de 1954, com 75 anos, merecendo os louvores do Conselho Nacional dos Serviços de Incêndios e da Inspecção de Incêndios da Zona Sul, cujo Inspector exarou o seguinte, na Ordem de Serviço n.º 23:
"O Padre António Luís de Sousa foi uma figura veneranda nos seus 75 anos, dos quais mais de 40 dedicados ao serviço da causa dos bombeiros. Encontrando aqui mais uma oportunidade de exercer a sua acção humanitária inteiramente, nesta referência um registo de louvor que figure na sua folha de serviço como testemunho de admiração e gratidão do Inspector de Incêndios pela sua presença dedicada e constante nesta causa que tão entusiástica e apaixonadamente abraçou e que sempre recebeu com a veneração devida à sua posição de sacerdote querido e respeitado."
O seu funeral resultou numa "grande manifestação de pesar", nele comparecendo, em elevado número, representações de bombeiros de vários pontos do país.
Foi sepultado no Cemitério do Alto de S. João, mais precisamente no talhão privativo dos Bombeiros Voluntários da cidade de Lisboa. Bombeiro uma vez, bombeiro para sempre. Bombeiro do quadro eterno.
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